O Ministério Público Federal (MPF) recomendou a desativação de um memorial dedicado a Ernesto Geisel, instalado na biblioteca da Universidade de Caxias do Sul, em Bento Gonçalves (RS), alegando que o ex-presidente está ligado a violações de direitos humanos cometidas durante o período em que liderou o país sob regime militar, entre 1974 e 1979.
A polêmica em torno da criação do memorial ganhou força depois de sua abertura, na semana passada.
Na segunda-feira 24, os procuradores Enrico Rodrigues de Freitas e Fabiano de Moraes, da Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão do MPF no Rio Grande do Sul, oficializaram o pedido e deram cinco dias para a instituição se posicionar.
A universidade informou estar tratando do caso de forma interna, sem apresentar detalhes à imprensa.
Argumentos do MPF
A recomendação do MPF também pede que a universidade evite manter homenagens, memoriais ou nomes de espaços que exaltem pessoas envolvidas em graves violações de direitos humanos, como sugerido no relatório da polêmica Comissão Nacional da Verdade.
O texto menciona episódios envolvento 54 desaparecimentos políticos no primeiro ano do governo Geisel, além das mortes de Vladimir Herzog e Manuel Fiel Filho no DOI-Codi em São Paulo.
O documento destaca ainda casos de tortura e assassinato de dezenas de militantes do PCB, além do sequestro dos uruguaios Universindo Díaz e Lilian Celiberti em Porto Alegre.
O memorial apresenta painéis com informações sobre projetos científicos, como o Pró-Álcool, o programa nuclear brasileiro e a expansão da agricultura no cerrado, além de cópias de documentos e registros de viagens de Geisel durante seu mandato.
Reação da prefeitura e debate sobre memória
O prefeito Diogo Siqueira declarou que, se a universidade acatar a recomendação do MPF, buscará alternativas para manter o memorial na cidade.
“É o único cidadão de Bento Gonçalves que se tornou presidente do Brasil”, afirmou. “Esse memorial fala das conquistas que aconteceram nesse período. O que não pode acontecer é uma idolatria de feitos errados, ou então a gente tentar apagar a história dessa pessoa.”