A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sofreu dois reveses simultâneos que voltaram a jogar holofotes sobre suspeitas de corrupção em seu entorno político e familiar.
Nesta quinta-feira (30), o ministro do STF André Mendonça autorizou a abertura de um novo inquérito contra Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, para investigar suspeitas de corrupção e tráfico de influência no mercado de cannabis medicinal.
A Polícia Federal suspeita que o filho do presidente tenha atuado junto ao Ministério da Saúde e ao Palácio do Planalto para favorecer a empresa World Cannabis, ligada ao lobista Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”.
A investigação se baseia em mensagens e indícios de que Antunes custeou viagens de Lulinha e realizou repasses financeiros a pessoas próximas. A defesa do filho do presidente nega irregularidades e afirma que ele jamais exerceu influência para beneficiar o empresário.
No mesmo dia, Mendonça também autorizou a quebra do sigilo das investigações da Operação Compliance Zero envolvendo o senador Jaques Wagner (PT-BA), revelando detalhes do suposto “arranjo estruturado” descrito pela Polícia Federal entre o parlamentar e o antigo Banco Master.
Segundo os investigadores, Wagner manteve 74 ligações com o ex-sócio da instituição, Augusto Ferreira Lima, que somaram mais de cinco horas de conversa ao longo de um ano e meio, parte delas relacionada a temas de interesse do banco.
De acordo com a investigação, o senador teria recebido vantagens como o uso de jatinhos privados, ingressos para o show da cantora Taylor Swift destinados a familiares e facilidades na negociação de um apartamento de R$ 2,45 milhões em Salvador.
Diferentemente da operação deflagrada em junho, quando Wagner foi alvo de medidas cautelares do STF e acabou deixando a liderança do governo no Senado, a divulgação dos novos detalhes da investigação provocou uma repercussão política mais discreta. Por sua vez, Wagner declarou que irá provar sua inocência.
PT carrega “aura” de corrupção
Analistas ouvidos pela Gazeta do Povo avaliam que os dois casos oferecem à oposição uma oportunidade para recolocar a corrupção no centro da disputa eleitoral e reativar um dos principais passivos históricos do PT: a associação do partido ao mensalão, ao petrolão e à Operação Lava Jato.
Embora as condenações de Lula tenham sido anuladas, a avaliação é de que o rótulo permaneceu no imaginário de parte do eleitorado e tende a ser reforçado por novas investigações envolvendo pessoas próximas ao presidente.
“O estigma de corrupção em relação ao PT permanece, é quase perene, e esses casos funcionam como um fantasma que reforça essa percepção”, afirma Marcelo Faria, presidente do Instituto Liberal de São Paulo (Ilisp).
Para ele, “o caso do Lulinha, obviamente, resgata o grande escândalo do INSS, que estava um pouco esquecido, mas deve ser lembrado novamente.”
O advogado constitucionalista André Marsiglia considera os episódios graves, especialmente o envolvendo Jaques Wagner. “Ele era o líder do governo e está sendo acusado de atuar como intermediário entre o caso Master e o governo Lula.”
Ele pondera, porém, que ainda é cedo para medir o impacto eleitoral das investigações. “As pessoas, de modo geral, estão anestesiadas por escândalos reiterados e também há uma certa desesperança, sobretudo após o desmantelamento da Lava Jato”, afirma.
“Parte do eleitorado passou a colocar as divergências ideológicas acima de critérios morais na avaliação dos candidatos e, assim, a corrupção acaba sendo relativizada”, comenta.
Segundo ele, como Lula é o único candidato da esquerda à Presidência, a tendência é que as denúncias, por si sós, não sejam suficientes para desidratar sua candidatura.
Corrupção perdeu protagonismo
Embora siga entre as principais preocupações dos brasileiros, a corrupção perdeu protagonismo nos últimos anos para áreas como saúde, segurança pública e economia.
“A corrupção só foi top of mind em 2014 e 2016 por causa da economia e da gigantesca queda do PIB”, afirma Rafael Favetti, da Fatto Inteligência Política. “Na série histórica, saúde e segurança aparecem muito mais em evidência do que corrupção”, explica.
O cientista político vê diferenças entre os dois episódios envolvendo o presidente. No caso de Lulinha, Favetti acredita que o impacto eleitoral tende a ser reduzido porque ele não ocupa cargo público.
“Ele não está no governo”, afirma. “Me parece muito mais um movimento da oposição para explorar politicamente o caso do que algo com potencial de produzir efeito eleitoral.” Para ele, também pesa o fato de Lula ter adotado uma postura de distanciamento ao afirmar publicamente que o caso deveria ser investigado.
Já a situação do senador é vista com maior preocupação, devido ao seu papel político e aos planos eleitorais na Bahia. “O Wagner segue por um caminho complicado porque é candidato”, afirma. “Ele já caiu cerca de 6% nas pesquisas desde que começaram as revelações envolvendo o Banco Master.”
Ainda assim, ele avalia que esse desgaste tende a permanecer regionalizado e dificilmente contaminará, por si só, os índices nacionais de Lula.
Polarização ajuda a relativizar corrupção
Para Cristiano Noronha, da Arko Advice, a polarização contribui para relativizar o peso da corrupção na disputa presidencial, com um efeito de neutralização entre as bases mais fiéis dos principais candidatos.
“O eleitor do Lula e o do Flávio reagem de forma muito parecida”, explica. “Se você fala de um problema do Lula, a resposta é: e o Flávio? Se fala do Flávio, vem a resposta: e o Lula? De um lado e de outro, os eleitores acabam anestesiados pelo acúmulo de denúncias.”
Marcelo Faria, do Ilisp, entende que existe uma diferença entre as suspeitas que envolvem Flávio Bolsonaro (PL) e o histórico de corrupção associado ao PT. Ele aponta o que considera uma disparidade de escala entre os casos.
Enquanto as investigações envolvendo Flávio estariam relacionadas a cerca de R$ 100 milhões destinados ao financiamento de um filme, os episódios ligados ao PT envolveriam cifras bilionárias.
“No caso do Lula, estamos falando de bilhões, de estatais, do escândalo do INSS”, afirma. “Até onde se sabe, o caso do Flávio não é de venda de influência no Senado.”
Além disso, sustenta que há uma discrepância na cobertura jornalística. “A grande mídia tende a repercutir muito mais qualquer coisa que envolva o Flávio do que o Lula”, comenta.
Para Marsiglia, “a esquerda e a mídia relativizam a corrupção por ideologia e por interesse em ocupar espaços no poder”.
Decisão será de eleitor independente
Rafael Favetti entende que, apesar dos reveses, Lula ainda “é o favorito” para vencer a eleição, mas por pouquíssima margem. “Mas não dá pra cravar”, diz. “A eleição está aberta”.
Neste cenário de indefinições, a eleição tende a ser definida pelo eleitor de centro, independentemente de quem for o candidato da oposição ao governo. Noronha, contudo, afirma que inexiste a possibilidade de o candidato da oposição ser outro que não Flávio Bolsonaro.
“A eleição será apertada, mas decidida pelo eleitor independente, que pode migrar de um lado para outro”, diz Noronha.
Este eleitor, segundo ele, tende a ser o mais sensível ao surgimento de novas provas, mas o acúmulo de denúncias pode produzir um sentimento de desencanto.
Na sua avaliação, tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro carregam vulnerabilidades e o impacto dependerá da consistência das investigações que surgirem ao longo da campanha. “As duas candidaturas têm fio desencapado”, afirma.
“Esse eleitor decisivo pode se decepcionar com Lula e com Flávio e optar pelo voto branco ou nulo”, conclui.