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Lula critica tarifaço e faz campanha eleitoral na ONU

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez seu último discurso na Assembleia-Geral da ONU neste terceiro mandato | Foto: Reprodução/YouTube Nações Unidas

No dia 22 de setembro de 2026, durante seu último discurso na Assembleia-Geral da ONU em Nova York, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) criticou o tarifaço comercial dos Estados Unidos contra produtos brasileiros e fez um apelo por um “futuro democrático” no Brasil, a 12 dias do primeiro turno das eleições. Lula condenou a ingerência externa e defendeu a soberania brasileira, além de criticar a classificação de facções criminosas como terroristas pelos EUA.

Em seu último discurso na Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, no atual mandato à frente do Palácio do Planalto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aproveitou o palanque internacional para atacar o tarifaço comercial imposto pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros e fazer campanha eleitoral a apenas 12 dias do primeiro turno das eleições gerais brasileiras. 

Em uma fala dura, mas sem criticar diretamente o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Lula condenou o que chamou de tentativa de interferência externa em assuntos do Brasil e  disse que o país “não cabe no quintal de ninguém”.

“Precisamos de parceiros com uma agenda positiva, que fomente o desenvolvimento. Diferenças ideológicas não devem ser obstáculo para maior integração entre vizinhos”, afirmou o petista. “A democracia está novamente em xeque. Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais, a divisão do mundo em zonas de influência e investidas neocoloniais por recursos estratégicos que constituem gestos anacrônicos.”

No discurso, Lula afirmou ainda que o governo brasileiro tem “autoridade moral para rejeitar medidas protecionistas disfarçadas de apego à causa ambiental”. 

“A Organização Mundial do Comércio respira por aparelhos. Quando os governos capitulam frente aos que usam tarifas como armas de coerção e chantagem, as consequências são nefastas”, disse o petista, em referência ao tarifaço comercial imposto pelos EUA.

Para Lula, “o Estreito de Ormuz transformou-se em trincheira da guerra quando deveria permanecer uma passagem vitral para o comércio internacional”. “Famílias em todo o mundo pagam pelo aumento dos preços de combustíveis, fertilizantes e alimentos”, declarou. 

Ormuz é o canal marítimo estratégico localizado entre o Irã e os Emirados Árabes Unidos, considerado o “gargalo” mais importante do mundo para a energia por concentrar cerca de 20% a 30% do petróleo mundial e grande parte do gás natural liquefeito (GNL). O estreito é crucial para a economia global.

Tom de campanha

Apesar de estar discursando em um fórum internacional, Lula adotou um tom de campanha, a 12 dias do primeiro turno das eleições presidenciais no Brasil. O presidente da República falou sobre o processo eleitoral e disse que o país não aceitará qualquer interferência de outros países no pleito. 

“No dia 4 de outubro, milhões de brasileiras e brasileiros vão às urnas para definir o seu destino. Não vão apenas eleger o presidente da República, governadores estaduais e representantes do Poder Legislativo. Vão decidir entre democracia e negacionismo. Se o Brasil vai avançar rumo a um futuro de mais oportunidades ou regressar a um passado de exclusão”, afirmou Lula. 

Segundo o petista, que novamente não citou nomes, “alguns abusam dessa liberdade para se associar a interesses estrangeiros contrários ao país”. “Possuímos um sistema eleitoral moderno e robusto. Sob o olhar atento de uma cidadania plural e de uma imprensa livre, não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular”, declarou Lula.

Crime organizado

Mais uma vez sem mencionar expressamente o governo Trump, Lula criticou a decisão dos EUA de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), as duas maiores facções criminosas do Brasil, como grupos terroristas. 

“O Brasil não subestima o desafio representado pelo crime organizado.Estamos preparados para enfrentar as organizações criminosas que aterrorizam nossas comunidades. As pessoas estão cansadas da violência, mas não vamos terceirizar a responsabilidade de defender as nossas fronteiras”, disse o petista. 

“Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas.  Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastecem o crime.Queremos combater a lavagem de dinheiro realizada por criminosos brasileiros no exterior”, completou.

Inteligência artificial e bets

Em seu discurso na ONU, Lula também deixou clara sua resistência aos avanços da inteligência artificial (IA) e também criticou o mercado de apostas esportivas on-line, as bets

“Vivemos uma revolução tecnológica sem precedentes, com grandes riscos e oportunidades. Seria uma omissão histórica imperdoável não enfrentar o desafio da regulamentação das big techs e da IA”, disse.

“Um punhado de tecno-oligarcas quer ressuscitar uma versão de neoliberalismo digital, sem regras nem transparência. Estão promovendo uma corrida sem freios éticos à revelia da ONU e do Painel Científico sobre Inteligência Artificial”, criticou.

Para o petista, “empresas que conhecem os riscos de seus produtos transferem para as famílias a impossível tarefa de enfrentar os algoritmos”. “Sua disseminação vertiginosa [das bets] está endividando e destruindo lares. O Brasil não vai tolerar esse modelo de negócio”, disse. 

Crise da ONU

Um dos pontos principais da fala de Lula foi uma dura crítica à própria ONU, que, segundo o petista, estaria “falhando” na discussão sobre os grandes temas geopolíticos globais, permitindo “crescentes desmandos das superpotências”. 

“Desde que ocupei pela primeira vez esta tribuna, em 2003, este é o momento mais crítico das Nações Unidas. O sentimento que me move hoje é o da indignação. A ONU está falhando na missão de livrar a humanidade do flagelo da guerra. Sua credibilidade nunca esteve tão baixa”, criticou Lula. “Somos todos reféns do imobilismo de um Conselho de Segurança que não cumpre o seu papel.”

O presidente brasileiro apontou o que chamou de  “uma profunda crise de liderança” em todo o mundo. “O ano de 2025 registrou o maior número de conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial. Trilhões de dólares financiam uma nova corrida armamentista”, observou.  

“Os que detêm as rédeas das decisões cruciais devem atuar com responsabilidade e sentido de urgência. Os  líderes dos países que integram o Conselho de Segurança precisam se reunir. As concessões à lei do mais forte já passaram os limites”, continuou Lula. 

Segundo o presidente, o mundo terá de “optar entre multilateralismo e unilateralismo, democracia ou extremismo, soberania ou subordinação”. 

Durante o discurso, Lula também atacou Israel, ao falar em “genocídio praticado pelo governo Netanyahu contra mulheres e crianças em Gaza”, e disse que “civis israelenses pagaram o preço do radicalismo e da intolerância dos atos terroristas do Hamas”.

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