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Lewandowski ‘desconhece o artigo 144’, diz ex-capitão do Bope

Ex-capitão do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) do Rio de Janeiro, Rodrigo Pimentel afirmou que o Estado fluminense enfrenta uma situação que ultrapassa o conceito tradicional de criminalidade e que o governo federal deveria participar mais ativamente do enfrentamento ao crime organizado. A declaração foi dada durante entrevista ao Oeste Sem Filtro desta terça-feira, 28, sobre a Operação Contenção, ação policial realizada nos complexos do Alemão e da Penha, que resultou em mais de 60 criminosos mortos.

Logo no começo da conversa, Pimentel recordou que houve mais cooperação federal em governos anteriores. Em 2011, o governo Dilma Rousseff “em menos de duas horas disponibilizou para o [então] governador Sérgio Cabral os blindados”, disse. Segundo ele, “o governador tem razão”, pois “solicitou, sim, ao governo federal o apoio, mas o governo federal realmente não emprestou o equipamento”.

O ex-Bope afirmou que a situação de segurança pública no Rio de Janeiro “é muito diferente de uma realidade de banditismo” e classificou o cenário como “conflito armado não internacional”. O termo, usado em tratados diplomáticos, descreve combates prolongados entre forças regulares e grupos armados. “Isso acontece normalmente na África, aconteceu na Síria e está acontecendo no Rio”, disse. Para o ex-capitão, o problema deixou de ser “polícia contra ladrão” e passou a ser “uma questão de soberania nacional”.

Ex-Bope critica o ministro da Justiça

Durante a entrevista, Pimentel criticou declarações recentes do ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski. “Ele realmente desconhece o artigo 144 da Constituição Federal”, afirmou, ao ressaltar que o texto “diz que segurança pública é responsabilidade de todos”. Ele argumentou que o Rio “não tem condição de enfrentar essa realidade” sozinho e que “sem a ajuda do governo federal, a situação vai ficar cada vez pior”.

O ex-Bope também mencionou o avanço de facções em outros Estados. Segundo ele, o Comando Vermelho já atua “expulsando centenas de famílias” em cidades do Ceará e pode ampliar sua presença em outras regiões. “Daqui a pouco Salvador também, a Bahia, não vai conseguir enfrentar”, disse.

O ministro da Justiça, Ricardo Ricardo Lewandowski | Vinicius Loures / Câmara dos Deputados Fonte: Agência Câmara de Notícias Vinicius Loures Câmara dos Deputados
O ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski | Vinicius Loures/Câmara dos Deputados

Ao ser perguntado se o quadro se aproxima de uma guerra civil, o ex-oficial explicou que a terminologia usada atualmente é “conflito armado não internacional”, caracterizado por “longa duração”, “conflitos de média intensidade” e “domínio territorial”. Ele afirmou que a polícia enfrenta restrições legais para agir e que “não temos mais legislação, não temos mais equipamento, não temos mais efetivo para enfrentar essa realidade de guerra”.

Em outro trecho, Pimentel afirmou que os criminosos possuem armamento pesado e tecnologia capaz de atacar as forças policiais. “Os drones estão lançando artefatos explosivos que possuem fragmentos e podem machucar o policial, podem matar o policial num raio de até 100 metros”, declarou. Segundo ele, os equipamentos usados pelos traficantes são semelhantes aos da guerra entre Rússia e Ucrânia.

O ex-capitão também argumentou que as principais facções criminosas do país sejam reconhecidas como grupos terroristas. “Conceituar PCC e Comando Vermelho e TCP [Terceiro Comando Puro] como organização terrorista não é somente um simbolismo que a direita brasileira quer”, afirmou. Ele explicou que o reconhecimento teria impacto prático, pois permitiria o compartilhamento de informações com agências internacionais como o FBI, a CIA e a Interpol. “Uma ação dessas é uma ação de terror em qualquer lugar do planeta”, declarou.

“É impossível entrar em qualquer reduto do CV sem tomar tiro”

Indagado sobre as críticas à operação, Pimentel rebateu a ideia de que houve falhas de inteligência. “Essa operação foi planejada ao longo de dez meses”, disse, ao citar que as forças policiais tinham informações sobre “paióis, casas de lideranças” e “rotas de fuga”. Para ele, “as pessoas confundem não ter inteligência com morte de policial”. Ele acrescentou: “É impossível hoje você entrar em qualquer reduto do Comando Vermelho sem tomar tiro”.

O ex-Bope argumentou que confrontos são inevitáveis diante do poder de fogo das facções. “Às vezes você tem todas as informações precisas e necessárias, […] mas para você ir lá buscá-lo, existe resistência, existe confronto”, afirmou. Segundo ele, “antropólogo, sociólogo e jornalista vão dizer que essa operação não teve inteligência nenhuma porque morreram policiais”.

Pimentel também respondeu sobre as críticas políticas à operação e afirmou que “o traficante sabe que ele tem uma rede de apoio, sustentação e colaboradores ingênuos”. Para ele, esse tipo de discurso “legitima a bandidagem” e enfraquece o Estado.

“É um país dentro de um país”, disse. O ex-capitão comparou a situação à Colômbia e argumentou que o Estado mantenha presença nas comunidades. “Pior do que uma operação policial é acordar e ter uma barricada do Comando Vermelho fechando a sua rua.”

Segundo Pimentel, as facções passaram a explorar economicamente as áreas sob seu controle e cobrar taxas mensais de comerciantes, “que às vezes variam de R$ 400 a R$ 1000 por mês”. Ele citou ainda um caso no Ceará em que “um vendedor de churrasquinho foi assassinado […] porque não quis pagar a taxa mensal”.

No encerramento da entrevista, o ex-Bope disse ver uma oportunidade de ação mais duradoura nas áreas afetadas. “Dessa vez o Comando Vermelho está enfraquecido e pode ser uma solução a ocupação territorial permanente, desde que o governo do Estado tenha apoio do governo federal”, declarou. Ele afirmou que a Polícia Militar “não tem capacidade sozinha de ocupar um território desse tamanho”.

Via Revista Oeste

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