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Indicação travada de Messias ao STF expõe fraqueza de Lula no Senado

Mais de três meses depois do anúncio, o Planalto ainda não formalizou a indicação de Jorge Messias, em meio à falta de votos e à dependência crescente de Davi Alcolumbre.

Jorge Messias e Lula em imagem sobre a indicação do AGU ao STF e a resistência no Senado.
Jorge Messias enfrenta resistência no Senado enquanto Lula tenta destravar a indicação ao STF. (Foto: Ricardo Stuckert / PR)

A indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal virou mais que uma escolha pendente do Palácio do Planalto. O caso já se transformou em um teste de força política para Lula no Senado, onde o governo ainda não conseguiu reunir segurança suficiente para mandar o nome adiante.

Passados mais de três meses do anúncio, a mensagem presidencial sequer foi formalizada. Na prática, o atraso expõe o receio de enfrentar uma tramitação sem votos garantidos, tanto na Comissão de Constituição e Justiça quanto no plenário da Casa.

Falta de apoio trava avanço

Nos bastidores, senadores atribuem a demora à conta política feita pelo governo. A avaliação é de que ainda não há apoio suficiente para aprovar Messias. Segundo levantamento citado pela reportagem, o indicado reúne hoje 25 apoios declarados, bem abaixo dos 41 votos exigidos para passar no plenário.

Na CCJ, o quadro também segue apertado. Messias teria 10 dos 14 votos necessários, enquanto parte dos parlamentares já se colocou contra e outro grupo ainda evita assumir posição. O Planalto, por isso, evita acelerar uma sabatina que pode escancarar sua fragilidade.

Alcolumbre virou peça central

O impasse também agravou o peso político de Davi Alcolumbre no processo. Como cabe ao presidente do Senado pautar a sabatina, a relação desgastada entre ele e o governo virou um obstáculo extra para Lula.

Aliados de Alcolumbre afirmam que o senador preferia outro nome para a vaga, o do ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco. A escolha por Messias esfriou o ambiente e deixou a articulação mais difícil. Dentro do PT, já há quem reconheça que a indicação só avança com ação direta de Lula para recompor a ponte com o comando da Casa.

Ano eleitoral aumenta custo da votação

O calendário político também pesa contra o governo. Em meio às articulações eleitorais, cresce entre parlamentares a leitura de que a sabatina pode ser empurrada para depois de outubro. A conta é simples: em ano eleitoral, poucos querem assumir o desgaste de uma votação sensível como essa.

O funcionamento semipresencial do Senado nas últimas semanas ainda reduziu o espaço para articulações presenciais em Brasília. Com isso, adversários da indicação ganharam mais terreno para defender o adiamento da análise.

Governo negocia no varejo

Na avaliação do cientista político Magno Karl, ouvido pela reportagem, a fragmentação partidária elevou o preço político da aprovação. Segundo ele, num ambiente sem maioria sólida, a indicação ao STF vira instrumento de pressão, barganha e cobrança sobre o governo.

O diagnóstico reforça uma leitura já disseminada no Congresso: Lula não dispõe de folga política para empurrar temas delicados sem negociação intensa. No caso de Messias, isso ficou ainda mais visível porque a indicação depende menos de vontade presidencial e mais da capacidade real do Planalto de costurar apoio voto a voto.

O histórico recente do Senado reforça a cautela. A própria recondução de Paulo Gonet, embora aprovada, teve queda relevante no número de votos em comparação com a votação anterior. Para interlocutores do Congresso, o recado é claro: as indicações do Executivo já não passam com a tranquilidade de antes.

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