Poucas vezes a velha máxima “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”, praticamente um mantra da esquerda, fez tanto sentido quanto na situação atual envolvendo o Instituto Conhecimento Liberta (ICL).
Durante anos, o empresário e comunicador Eduardo Moreira, criador do ICL, construiu sua imagem pública como um dos principais defensores de uma reforma tributária. O “Silvio Santos da esquerda”, como é chamado, repetiu inúmeras vezes que o Brasil tributa excessivamente o consumo e pouco a renda dos mais ricos. Uma possível solução defendida por ele seria taxar acionistas e sócios de empresas nos lucros e dividendos.
Em seus programas e nas entrevistas que concede, “Dudu”, como é chamado pelos mais próximos, dispara frases do tipo “O agro é o grupo mais poderoso e perigoso do Brasil”. Ou “Enquanto o rico não dormir com medo, não vai mudar. Não é o medo de ser guilhotinado. É o medo de descobrirem que ele não merece ter o que tem”. E ainda “Acredito no enfretamento, no conflito. Sem conflito não tem mudança”.
Só que essa narrativa não resistiu à realidade, e nesta semana o ICL se viu frente a uma de suas maiores crises de reputação e credibilidade. Após uma demissão em massa no instituto, Moreira revelou que antecipou uma distribuição milionária de lucros justamente para evitar a incidência do imposto que antes era defendido por ele.
Demissões no ICL atingiram equipe de produção jornalística do instituto
Criado como uma plataforma de educação, o ICL oferece acesso a vários cursos online mediante o pagamento de uma assinatura mensal. Há desde aulas técnicas (finanças, línguas, marketing digital) até palestras ministradas por figurinhas carimbadas da esquerda – como Leonardo Boff, Marilena Chauí, Jandira Feghali e Márcia Tiburi.
Os cursos são a espinha dorsal do financiamento do instituto. Com esses recursos é que são financiadas as produções jornalísticas do ICL, que vão desde jornais diários a documentários. E parte da equipe responsável por essa produção foi mandada embora nos últimos dias.
A onda de demissões atingiu o diretor de jornalismo do ICL, Leandro Demori, e outros nomes – entre eles repórteres, apresentadores e membros da administração.
A princípio, Eduardo Moreira afirmou que o ICL concluiu um processo de ajuste necessário para adequar seus custos à realidade financeira da instituição. Segundo ele, o jornalismo custou ao instituto R$ 8 milhões em 2024, R$ 14 milhões em 2025, e tinha potencial de chegar a um custo de R$ 22 milhões em 2026.
Ajustes como esses não são incomuns na iniciativa privada. Reorganizações financeiras são necessárias e até mesmo esperadas para se manter a saúde econômica de um empreendimento. Oscilações de receita, revisões estratégicas e cortes de despesas ocorrem de forma corriqueira, ainda mais em um ambiente de forte concorrência, como é o das mídias digitais.
Criador do ICL antecipou dividendos para evitar imposto milionário
As demissões, por si só, não chamariam tanto a atenção, e talvez ficassem restritas ao noticiário especializado do mundo corporativo. Mas não demorou muito para que essa movimentação ganhasse outros contornos.
Documentos divulgados por portais de esquerda davam conta de que o ICL havia antecipado a distribuição de lucros referentes aos anos de 2024 e 2025. O total é estimado em R$ 43 milhões. Eduardo Moreira teria ficado com aproximadamente R$ 25,1 milhões deste total. Mais uma vez, nada que indicasse alguma ilegalidade, uma vez que a legislação brasileira permite esse tipo de movimentação financeira.
O problema para o criador do ICL foi criado por ele mesmo, em um vídeo publicado em seu perfil no Instagram. Na postagem, Moreira admite que antecipou essa distribuição de lucros e dividendos justamente para escapar da tributação sobre esses recursos, defendida fervorosamente por ele.
“O caixa da empresa foi distribuído todo no ano passado para os sócios, porque teve uma mudança tributária no país, que passou, corretamente, a gente sempre defendeu isso, a tributar os dividendos. Então a gente precisou fazer isso para não pagar indevidamente mais de 5 milhões de reais em impostos e tributos”, admitiu o empresário.
Ou seja, Moreira segue defendendo que a mudança tributária está correta, e que é preciso – em sua visão – cobrar impostos sobre os lucros e dividendos de sócios de empresas. Porém, quando esse imposto seria cobrado sobre valores sobre os quais ele tem direito de receber, a tributação se torna algo “indevido”, nos termos usados pelo empresário em seu vídeo.
Os sócios que seguirem no ICL, disse Moreira, utilizarão esse dinheiro para bancar os compromissos financeiros futuros já assumidos. Pelo que disse no vídeo, esse total se aproxima dos R$ 100 milhões.
“Os sócios que continuam na empresa vão usar esse dinheiro que foi distribuído para pagar esses custos dos próximos anos. Os que saíram vão ficar com esse dinheiro, que já foi recebido e embolsado por eles”, continuou.
Tributação de dividendos foi retomada após 30 anos de isenção
A tributação sobre os dividendos estava inativa no Brasil há três décadas. A cobrança voltou como uma forma de equalizar as perdas de receita trazidas pela ampliação da faixa de isenções de Imposto de Renda entre os trabalhadores que recebem, em média, até R$ 5 mil mensais.
A Lei 15.270/2025 foi sancionada, e estabelece uma alíquota de 10% sobre lucros e dividendos superiores a R$ 50 mil por beneficiário a partir de janeiro de 2026. Para seguirem isentas dos 10% de IR ou sobre remessas ao exterior, as empresas precisaram calcular e aprovar a distribuição de juros e dividendos até 31 de dezembro do ano passado – a distribuição em si pode ser feita até 2028.
A mudança deflagrou um movimento de antecipação nas empresas brasileiras, e companhias correm para aprovar e distribuir valores ainda em 2025 e evitar a nova cobrança. Foi o que fez o ICL.
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Corrida contra o relógio: empresas aceleram distribuição de lucros para evitar taxação