O ex-governador do Rio, Anthony Garotinho, ganhou destaque no cenário eleitoral nesta semana ao dar detalhes sobre um vídeo que teria sido gravado durante uma festa oferecida a empresários e autoridades dos três Poderes pelo banqueiro Daniel Vorcaro. Isso ocorre 14 anos depois de Garotinho divulgar na internet fotos da chamada “farra dos guardanapos”, em Paris, que foram decisivas para a derrocada política de seu ex-aliado Sérgio Cabral.
Informalmente chamada de “festa das astronautas”, a confraternização de Vorcaro tinha um padrão inusitado: segundo Garotinho, tanto homens – políticos e empresários brasileiros – quanto mulheres – supostas estrangeiras contratadas como acompanhantes – estavam totalmente nus.
Garotinho afirma ter visto um vídeo com 12 minutos de duração gravado durante a festa. Ele não divulgou as imagens, mas foi o primeiro a descrevê-las publicamente, em um vídeo que publicou em seus canais na internet em 29 de maio.
Não houve uma repercussão pública imediata. Mas na última segunda-feira (29), a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro postou em seu perfil no Instagram, nos Stories (seção em que os vídeos ficam disponíveis por apenas 24 horas), um vídeo gravado pela influenciadora Juliana Moreira Leite a respeito da narrativa feita por Garotinho sobre a festa. Como legenda, Michelle escreveu: “A verdade de Jesus Cristo vai prevalecer.”
Cinco dias antes, Michelle havia feito acusações em um vídeo que publicou nas redes sociais de ter sido mal tratada em conversas com o enteado e pré-candidato a presidente da República Flávio Bolsonaro (PL). Flávio e alguns de seus aliados reagiram, a briga se estendeu e, embora Michelle não tenha dito mais nada sobre a festa de Vorcaro, críticos do pré-candidato criaram rumores de que a mulher de Jair Bolsonaro (PL) ameaçava contar fatos desabonadores sobre seu desafeto e enteado.
Passou-se a cogitar, então, que Flávio teria participado do evento, o que ele imediatamente negou. Garotinho logo depois afirmou que Flávio não aparecia no vídeo.
Devido à repercussão da publicação de Michelle, Garotinho passou a ser procurado pela imprensa para discorrer mais sobre o vídeo. “Eram mulheres altas, loiras, não tinham aparência de brasileiras, por serem muito brancas. As mulheres brasileiras, mesmo as mais brancas, não têm aquele formato corporal e aquela cor e altura”, disse o ex-governador do Rio em uma das entrevistas que concedeu, esta à TV 247, na internet.
“Elas estavam totalmente despidas, nuas, e passavam por um tablado que parecia uma passarela, os homens de um lado e de outro, todos também pelados, nus”, seguiu. “Como funcionava a mecânica? Elas passavam e, se o deputado – ou autoridade, senador, ministro – quisesse [ficar com a mulher], levantava a mão. Aí ela parava, ele então levantava a viseira, o capacete, olhava nos olhos e dizia ‘desce’. Aí ela descia [do tablado] e saía com ele”, explicou Garotinho.
O ex-governador do Rio disse que não reconheceu de imediato todos os presentes. “Alguns deputados que não conhecia eu tive que identificar, outras pessoas que foram identificadas depois eram empresários”, disse. Garotinho afirmou que havia católicos e evangélicos entre os homens presentes.
Dizendo-se pressionado a publicar o vídeo da festa das astronautas, Garotinho afirmou em um vídeo divulgado em suas redes sociais na última quarta-feira (1) que não faria isso para não desrespeitar a Justiça.
“Eu conversei muito com amigos, peguei o pen drive, mostrei a policiais, advogados, jornalistas, e a palavra mais sensata foi do advogado: ‘Esse vídeo está em segredo de Justiça, decretado pelo senhor [ministro do Supremo Tribunal Federal] André Mendonça. Está nos autos da investigação [sobre o banco Master]. Você vai criar mais problema com o mundo econômico e político’. Eu falei: ‘Mas, olha, o povo tem o direito de saber’ e o advogado me disse: ‘Que [o povo] saiba, Garotinho, quando a Justiça quebrar o sigilo'”, afirmou o ex-governador.
Nesse mesmo vídeo, Garotinho afirma que na festa “não tinha gente só de direita, tinha gente de todos os espectros políticos, sem exceção. E também, vamos falar a verdade, não tinha só político lá não, tinha empresário, gente poderosa”. Mas ele não citou o nome de nenhum participante.
No início da tarde desta quinta-feira (2), em novo vídeo veiculado em suas redes sociais, Garotinho voltou ao tema para dizer que “não vou ser usado por ninguém” e que “não vou me meter nessa confusão entre Michelle e Flávio Bolsonaro”.
“Agora, também não quero que desvirtuem minhas palavras. Em nenhum momento eu disse o nome de ninguém que estava lá. Tudo o que está sendo dito aí é insinuação. O que afirmei eu repito: eu tenho 12 minutos do filme que foi tirado de lá, esse evento não foi realizado em Nova York (…), estavam lá autoridades do Poder Executivo, Legislativo e Judiciário, senadores, deputados federais e empresários. (…) Nos 12 minutos que eu tenho de gravação não há nenhuma imagem do senador Flávio Bolsonaro. Eu nunca disse que tinha nem disse que não tinha. Se ele esteve e não foi filmado, isso é problema de outra pessoa.”
Até a publicação da reportagem, Michelle Bolsonaro não havia se manifestado sobre a afirmação de Garotinho, que é pré-candidato a governador do Rio pelo Republicanos. O partido fez parte da base de apoio do presidente Jair Bolsonaro durante sua gestão (2019-2022) e ainda não decidiu qual candidato apoiará na eleição presidencial deste ano.
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Cabral e Eduardo Paes estiveram na “farra dos guardanapos” em Paris
Em abril de 2012, Garotinho publicou na internet fotos do então governador do Rio, Sérgio Cabral, acompanhado por cinco secretários estaduais e por correligionários, como o então prefeito do Rio, Eduardo Paes, todos à época no PMDB, durante festa realizada em 2009, em um restaurante de Paris, com o empresário Fernando Cavendish, dono da Delta Construções.
A empreiteira tinha faturado R$ 1,5 bilhão em contratos assinados com o governo do Estado do Rio durante a gestão de Cabral e, desde antes da divulgação das fotos, havia suspeita da existência de um esquema de corrupção envolvendo o empresário e o então governador, que depois seria condenado a mais de 400 anos de prisão por liderar diversos esquemas de propina.
A confraternização ficou conhecida como “farra dos guardanapos”, porque Cabral e alguns secretários aparecem nas fotos com guardanapos amarrados na cabeça. A divulgação das imagens por Garotinho foi decisiva na perda de poder político de Cabral. O então governador do Rio chegara a ser cotado para disputar a presidência da República com apoio de Lula, mas começou a ser alvo de suspeitas de corrupção após um acidente de helicóptero, em 17 de junho de 2011, na Bahia, no qual morreram a namorada de um dos filhos de Sérgio Cabral e a mulher de Cavendish. As duas famílias estavam passeando juntas.
Em 2017, o empresário afirmou à Justiça que pagava propina a Cabral para que sua empresa vencesse licitações promovidas pelo governo fluminense.
Até hoje Cabral e Garotinho são desafetos e não raro trocam ofensas nas redes sociais. Décadas atrás, porém, a história era bem diferente. Em 2002, Cabral se elegeu senador com apoio de Garotinho, que, filiado ao PSB, encerrava sua gestão como governador do Rio e ficou em terceiro lugar na disputa presidencial vencida por Lula. A mulher dele, Rosinha Garotinho, elegeu-se governadora do Rio.
Em 2003 Garotinho foi para o PMDB e, três anos mais tarde, ajudou Cabral a se eleger governador. A briga entre ambos aconteceu em 2009 e por causa dela Garotinho trocou o PMDB pelo PR (atual PL). Na eleição seguinte, em 2010, Cabral se reelegeu governador do Rio e Garotinho, com quase 700 mil votos, foi o deputado federal mais votado no Estado e o segundo com mais votos no Brasil, perdendo apenas para Tiririca.
Condenado por esquemas de corrupção, Cabral ficou preso por seis anos e hoje mora em Copacabana (zona sul) e fala sobre política em suas redes sociais. Atualmente sem mandato, Garotinho pretende disputar novamente o governo do Estado em outubro.
Eduardo Paes (PSD), que é pré-candidato ao governo do Rio, disse na época que não mantinha relações pessoais com fornecedores ou empreiteiros da gestão estadual e se retirou da festa antes do fim. Ele não sofreu condenação relacionada ao caso.