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“Fábio e eu somos uma coisa só”, diz lobista em mensagem

A Polícia Federal (PF) extraiu do celular da lobista Roberta Luchsinger mensagens que comprometem ainda mais Fábio Luís Lula da Silva na investigação por suspeita de tráfico de influência no governo Lula. Numa conversa em janeiro de 2024, com o empresário Gustavo Gaspar — que viria a ser alvo da Operação Sem Desconto –, a amiga de Lulinha evidencia o grau de intimidade com o presidente da República, expõe a sociedade com seu filho e demonstra ter acesso liberado na Esplanada.

“Fefe, Fábio e eu somos uma coisa só. Se um fala vai, tds vão. A gente é mesmo irmão”, diz Roberta. Fefê é Fernando Bittar, antigo sócio de Lulinha e um dos donos formais do sítio de Atibaia. Segundo o relatório policial, obtido pela Veja, o trio teria formado um núcleo permanente voltado à interlocução de interesses privados com integrantes da Administração Pública Federal. Ou seja, para a prática do crime de tráfico de influência.

Em outra mensagem, reproduzida pela revista, Roberta conta que Lula, após a vitória eleitoral em 2022, a chamou para lhe oferecer uma posição em algum ministério ou estatal. “Fui das poucas pessoas q o Lula chamou e perguntou: escolhe onde vc quer ficar. (…) Eu disse: aonde eu tô. Na minha sociedade com Fábio e Fernando.” E complementa, demonstrando trânsito livre no governo do pai do sócio: “Tô em cargo nenhum e ando onde eu quero.”

Roberta Luchsinger também explica o papel de Fábio, que só atuava quando necessário. “Fábio não faz nada. Ele só entra em campo qdo precisa. Tem q se preservar”, disse. As mensagens foram obtidas após o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizar a quebra do sigilo telemático de Roberta. A partir do conteúdo armazenado em nuvem, os investigadores passaram a analisar conversas, documentos e movimentações relacionadas aos negócios conduzidos pelo grupo.

Atuação no governo

Roberta é investigada com Fábio em três inquéritos, por suspeita de tráfico de influência, corrupção e lavagem de dinheiro. Um deles trata da tentativa de emplacar no SUS medicamentos à base de canabidiol. De acordo com a PF, Roberta atuava para destravar a regulamentação do setor e, posteriormente, viabilizar um contrato superior a R$ 1 bilhão no Ministério da Saúde.

Em uma conversa de janeiro de 2025, Roberta relatou a Lulinha que Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, pressionava pelo avanço do negócio. “Ontem eu disse para Fábio: Antonio tá pressionando e acho bom vc se mexer”, escreveu.

A investigação aponta ainda que Lulinha teria ajudado a abrir caminho para uma reunião entre Roberta e Swedenberger Barbosa, então secretário-executivo do Ministério da Saúde. Em conversa sobre o encontro, Roberta afirmou: “Precisamos 100% do Berger”. Para os investigadores, as evidências reforçam o objeto da investigação e a necessidade de medidas cautelares, por parte de Mendonça.

“Fábio e eu somos uma coisa só”, diz lobista em mensagem. Foto: Reprodução/ Revista Veja

Outros negócios

A atuação atribuída ao grupo não estaria restrita ao Ministério da Saúde. Segundo a investigação, Roberta também teria buscado influência em questões envolvendo a Dataprev, estatal responsável pelo processamento de dados utilizados pelo sistema previdenciário.

Em uma conversa com um empresário ligado ao Careca do INSS, a lobista perguntou: “Ta indo tudo ok na Dataprev ou preciso apertar Gabas?”. A referência seria a Carlos Gabas, ex-ministro da Previdência.

O inquérito também cita disputas envolvendo a Telebras. Roberta teria informado a Lulinha que Kalil Bittar, irmão de Fernando Bittar, estaria utilizando o nome do filho do presidente para tentar viabilizar contratos na estatal.

Investigação

A apuração da PF teve origem nas diligências relacionadas à Operação Sem Desconto, que investigou fraudes bilionárias contra aposentados e pensionistas do INSS. Embora Lulinha tenha sido mencionado durante a investigação parlamentar sobre o caso, a quebra do sigilo de Roberta ampliou o escopo das apurações e levou os investigadores a outros negócios.

A PF concluiu haver indícios de um “núcleo de atuação permanente e coordenada” formado por Roberta, Lulinha e Bittar para defender interesses privados diante de órgãos públicos.

Lula não é investigado no inquérito e não foi apontado como alvo da apuração. O presidente já declarou que, caso o filho tenha cometido alguma irregularidade, deverá responder pelos próprios atos.

A defesa de Lulinha nega que ele tenha participado de negócios envolvendo a administração pública e afirma que o filho do presidente sofre com o peso do sobrenome. Roberta também é alvo da investigação. O ex-chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, citado nas mensagens, afirma que pagamentos feitos pela lobista em suas despesas pessoais estavam relacionados a um empréstimo que posteriormente teria sido quitado.

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