O governo de Donald Trump está focado em ampliar os aportes a projetos de desenvolvimento econômico na América Latina como parte de uma estratégia de cooperação renovada, atrelada a interesses de segurança nacional dos Estados Unidos, com o objetivo de reduzir a influência de China e Rússia na região.
Segundo o diretor de Operações da Agência de Comércio e Desenvolvimento dos EUA (USTDA, na sigla em inglês), Thomas R. Hardy, essa visão da Casa Branca ganhou força redobrada após as recentes vitórias da direita no continente.
O executivo destacou que observa um envolvimento “muito mais próximo” dos governos e do setor privado dos países latino-americanos, que agora buscam estreitar a cooperação com os EUA.
“Acredito que o programa da USTDA na América Latina vai crescer significativamente. O crescimento tem sido lento por muitos anos. Reorganizei a equipe, contratei mais funcionários e fortaleci nossa presença, deixando bem clara a importância do Hemisfério Ocidental”, disse ele à Agência EFE em uma coletiva de imprensa na semana passada, ocasião em que citou diferentes projetos de infraestruturas dos EUA ao redor do mundo.
Um dos primeiros compromissos assumidos pela USTDA na América Latina é um acordo assinado em março com o novo presidente de Honduras, o direitista Nasry Asfura, para acelerar o desenvolvimento de um corredor logístico interoceânico para conectar o Mar do Caribe ao Oceano Pacífico. A ação inclui a futura construção de uma ferrovia interoceânica, a modernização de portos e a integração com rodovias de alta capacidade no país, com um investimento estimado entre US$ 10 bilhões e US$ 20 bilhões.
Outra demanda crescente dos americanos na região é a expansão da energia nuclear de uso civil, impulsionada pelo interesse na construção de data centers de IA e segurança energética. Neste mês, o governo argentino anunciou a construção de um reator nuclear modular em Atucha, empreendimento que contará com capital americano.
A Rússia segue nesse mesmo caminho, com foco no Brasil. O país, por meio da estatal Rosatom, enxerga o país sul-americano como um parceiro estratégico na área de energia nuclear, reforçando o uso da energia como ferramenta da política externa de Vladimir Putin.
Os novos horizontes políticos que surgem na região abrem caminho para novos investimentos que podem potencializar os laços regionais, ao mesmo tempo em que cumpre um segundo objetivo de Trump no novo mandato: o de afastar a influência de China e Rússia.
Durante décadas, esses regimes adotaram uma postura expansionista de longo prazo na América Latina, por meio de laços comerciais e ideológicos com os governos.
Esses planos consolidaram Pequim como o principal parceiro comercial de diversos países da região, como o Brasil, enquanto Moscou buscou acordos militares com aliados ideológicos em áreas estratégicas, como Venezuela e Cuba.
Doutrina Monroe 2.0
Frederico Dias, professor de Relações Internacionais do Ibmec Brasília, explica à Gazeta do Povo que, ao ampliar aportes na região, os EUA têm como objetivo declarado colocar em prática sua própria estratégia de segurança nacional.
“Washington busca conter a influência chinesa, que avançou por duas décadas via bancos de desenvolvimento, contratos de construção e empréstimos com poucas condicionalidades políticas”.
Ele cita como exemplos o modelo visto na Nicarágua, onde o ditador Daniel Ortega impulsionou as parcerias com as ditaduras nos últimos anos em questões militares, tecnológicas e comerciais; no Chancay peruano, onde a China injetou dinheiro para a construção de um megaporto; e na rede elétrica chilena, país onde o gigante asiático controla boa parte da distribuição por meio de suas empresas estatais, como a State Grid.
Na análise de Dias, um eventual afastamento de “concorrentes extra-hemisféricos”, expressão usada pela Casa Branca para se referir a China e Rússia, cria um dilema para o Brasil. O país tradicionalmente adota uma estratégia de diversificar suas parcerias internacionais para evitar depender excessivamente de uma única potência, equilibrando as relações entre diferentes atores globais.
“Aceitar capital americano pode significar menos diversificação e maior dependência política, mas também acesso a tecnologia, mercados e proteção de segurança que Pequim não pode oferecer, pelo menos até o momento”.
Trump publicou em dezembro uma nova Estratégia Nacional de Segurança (ENS) que coloca a América Latina em destaque. O documento assinalou uma mudança completa das prioridades estratégicas de Washington.
Além da contenção da China e da Rússia, outro ponto que está em jogo na proposta de novos investimentos na região é o interesse concreto do governo americano no acesso a minerais críticos, energia e cadeias de suprimento nesses países.
Em fevereiro, a gestão republicana chegou a um acordo com a Argentina para fornecimento e processamento de minerais críticos. O Brasil, conhecido como detentor de um dos maiores potenciais de terras raras do mundo, também entrou na mira dos EUA recentemente, apesar da resistência do governo Lula (PT) em fechar parcerias no setor.