Em meio à migração recorde de cidadãos brasileiros para o Paraguai e ao interesse crescente de empresas daqui em instalar fábricas no país vizinho, a atratividade do ambiente de negócios paraguaio passou a despertar a atenção também do varejo nacional.
Depois de fabricantes brasileiras de setores como têxtil, calçados, autopeças, metalurgia, plásticos, produtos químicos e manufaturas voltadas à exportação levarem parte de sua produção para o território paraguaio, a rede Havan anunciou que estuda a abertura de sua primeira loja fora do país na grande Assunção.
“O Paraguai vive um momento de grande transformação. Com impostos baixos, liberdade econômica, contas equilibradas e estímulo ao empreendedorismo, o país atrai investimentos e gera oportunidades”, afirmou Hang após encontro com o presidente do Paraguai, Santiago Peña, no início de julho.
O próprio presidente paraguaio exaltou a visita do empresário ao país em uma publicação no X. “Luciano chegou atraído pelos excelentes comentários de outros empresários da região sobre as oportunidades que nosso país oferece”, afirmou Peña.
Hang segue uma tendência que, apenas do ano passado para cá, levou companhias como as fabricantes brasileiras de produtos têxteis Lupo, Döhler e Karsten, e de calçados Kidy e Dass a iniciarem operações no Paraguai. Em outubro de 2025, a JBS também anunciou seu retorno ao país após oito anos, com um plano de investimento de US$ 70 milhões em dois anos.
Entre outras indústrias brasileiras que avaliam seguir o movimento estão a Adere, fabricante de fitas adesivas, a Proeletronic, de eletrônicos para televisores, conversores e roteadores, e a Bralyx, de máquinas e equipamentos para a indústria alimentícia.
Além dessas, Cacau Show, Bauducco e Bom Sabor, além de multinacionais como Stepan Química e Ajinomoto, já buscaram informações sobre os benefícios de operar no país vizinho, durante evento em São Paulo que discutiu investimentos no Paraguai.
“O Paraguai passou a ocupar uma posição estratégica para empresas brasileiras que desejam ampliar competitividade sem abrir mão da proximidade geográfica e da integração comercial proporcionada pelo Mercosul”, afirma o advogado especialista em direito empresarial Daniel Cabrera.
- Luciano Hang é recebido pelo presidente do Paraguai e avalia expandir a Havan para o país
- Altos impostos no Brasil empurraram a Lupo para o Paraguai, diz CEO da centenária fábrica
Carga tributária menor e regime diferenciado atraem empresas brasileiras
Uma das principais razões para essa onda é a carga tributária, baseada no modelo “10-10-10”, em que a alíquota máxima para o imposto de renda, tanto de pessoas físicas quanto jurídicas, é de 10%, assim como o imposto sobre valor agregado (IVA) cobrado sobre movimentações financeiras.
O país ainda conta com a chamada Lei de Maquila, que incentiva a instalação de indústrias voltadas à exportação. Empresas sob esse regime pagam um tributo único de 1% sobre o valor agregado localmente, além de contar com incentivos para importação de insumos, máquinas e equipamentos utilizados na produção e isenção de imposto de renda sobre dividendos.
No ano passado, o governo paraguaio reformou o programa, dando mais celeridade à adesão ao modelo, reduzindo custos operacionais e ampliando o número de empresas aptas a acessar o modelo tributário, incluindo prestadoras de serviços. Foram incluídos incentivos específicos à produção e montagem de equipamentos eletrônicos e digitais, além de um prazo inicial de 20 anos para os benefícios, com possibilidade de renovação.
Até 31 de dezembro do ano passado, das 339 empresas que operavam no Paraguai sob esse regime, 231 eram brasileiras (68,1%), de acordo com dados do Ministério de Indústria e Comércio do país.
- Por que empresas brasileiras estão se mudando para o Paraguai?
- Indústrias brasileiras cruzam a fronteira e ampliam produção no Paraguai para fugir de impostos
Encargos trabalhistas e custos operacionais também são mais acessíveis no Paraguai
Embora o salário mínimo no Paraguai seja superior ao brasileiro em termos nominais – 3,044 milhões de guaranis, cerca de R$ 2,6 mil –, o custo da mão de obra para a empresa acaba sendo inferior em razão dos menores encargos trabalhistas.
A contribuição patronal ao Instituto de Previdência Social (IPS) é de 16,5% (contra 20% no Brasil) e não há recolhimento de FGTS, PIS/Pasep e contribuição ao Sistema S. A jornada semanal paraguaia é de 48 horas (contra 44 horas no Brasil) e as férias variam de acordo com o tempo de serviço, sem adicional equivalente a 1/3 do salário como no Brasil.
Enquanto o custo da mão de obra formal no Brasil pode variar de cerca de 60% a mais de 100% além do salário, dependendo do setor, no Paraguai esse acréscimo costuma ficar na faixa de 25% a 35%.
Até mesmo a tarifa industrial de energia elétrica, um dos principais custos operacionais na indústria, é mais acessível – em média US$ 41 por MWh contra US$ 113 no Brasil, segundo a Rede de Investimento e Exportação (Rediex), do Ministério da Indústria e Comércio paraguaio.
O advogado Ivson Coêlho, especialista em direito tributário, destaca ainda que o ambiente de negócios brasileiro, na contramão, tem passado por mudanças que ampliam a percepção de carga tributária elevada.
“A reforma tributária, a regulamentação das offshores e o fim de benefícios fiscais relevantes no último ano contribuíram para um ambiente de maior pressão sobre as empresas”, diz. “Setores como o agronegócio e o e-commerce têm sentido esse impacto de forma mais intensa e, por isso, lideram o movimento de reestruturação, seja com a transferência de operações, seja com a criação de holdings no exterior.”
Para ele, a migração de parte das operações para o Paraguai é uma tendência que reflete um comportamento esperado do empresariado, especialmente entre os que operam em maior escala.
“Empresas buscam, naturalmente, reduzir custos e aumentar competitividade, e a carga tributária é um dos principais fatores nesse cálculo. Em um país onde os tributos são elevados e vêm aumentando de forma consistente, ao mesmo tempo em que benefícios fiscais são reduzidos, a busca por alternativas torna-se quase inevitável”, afirma.
Paraguai também atrai cidadãos e investidores brasileiros
Além de empresas, o Paraguai tornou-se recentemente destino também de uma onda migratória de cidadãos brasileiros.
Nos seis primeiros meses deste ano, o governo paraguaio recebeu 33.243 pedidos de residência de cidadãos estrangeiros, quantidade recorde para um semestre. O número representa alta de 62% em relação às solicitações no primeiro semestre de 2025 (20.567), segundo dados da Direção Nacional de Migrações (DNM) do país.
Desse total, 29.765 requerimentos foram outorgados, o que representa um aumento de 81% na comparação com as 16.456 autorizações para residência no mesmo período do ano passado. O Brasil lidera com folga o ranking de origem dos pedidos, com 22.628 solicitações aprovadas, ou 76% do total. Argentinos, com 2.210, aparecem na sequência.
O elevado número de pedidos de residência neste ano levou a DNM a adotar um plano de contingência para dar conta do trabalho de controle, verificação documental e processamento dos casos.
“Como parte dessa medida, a instituição ampliou o horário de funcionamento e passou a realizar jornadas de trabalho também em dias não úteis, reforçando as atividades técnicas e administrativas relacionadas à análise documental, aos controles migratórios e à gestão dos processos, com o objetivo de otimizar os prazos de resposta e atender à crescente demanda”, afirma o órgão.
Para a Câmara de Comércio Brasil-Paraguai (CCPB), o aumento da procura reflete o ambiente favorável que o Paraguai oferece para empreendedores, investidores e profissionais estrangeiros.
Segundo a entidade, fatores como estabilidade macroeconômica, baixa carga tributária, custos operacionais competitivos e localização estratégica no centro da América do Sul tornam o país cada vez mais atrativo para quem busca novas oportunidades.
Além dos investimentos empresariais, muitos solicitantes apontam a qualidade de vida, a proximidade cultural entre Brasil e Paraguai e o crescimento do mercado imobiliário como fatores determinantes para a mudança de residência.
Segundo Ernesto Figueredo, presidente da empresa Raíces Real Estate, uma das maiores incorporadoras imobiliárias do Paraguai, brasileiros respondem por 50% das vendas da companhia e por 60% dos pedidos de residência para investidores no país.