Teresina - Piauí quarta-feira, 12 de agosto 33°C
Destaque / Internacional

El Salvador tem muito mais que a segurança, afirma embaixador

A poucos metros da movimentação típica das embaixadas de Brasília, a representação de El Salvador chama atenção justamente pelo contrário: discrição. Instalada em uma casa de fachada clara, rodeada por vegetação cerrada e um portão branco que protege o pátio de pedras, a sede diplomática parece mais uma residência pacata do Lago Sul do que o endereço oficial de um país da América Central. Nada ali sugere ostentação — e talvez por isso o prédio se imponha pela sobriedade silenciosa.

Ao entrar, o visitante encontra um ambiente amplo e iluminado, marcado pelo piso de granito polido e por paredes claras que reforçam a sensação de simplicidade funcional. Uma estante escura exibe livros, documentos e pequenas bandeiras do Brasil e de El Salvador, enquanto cadeiras de tecido claro compõem o hall de recepção. Mais ao fundo, surgem os elementos oficiais: quadros (um deles do presidente Nayib Bukele), símbolos de governo e a bandeira salvadorenha, que antecipam o ambiente diplomático instalado no andar superior.

É no segundo piso que a mudança de atmosfera se completa. Ali, uma sala de paredes azul-royal abriga o brasão prateado de El Salvador e a bandeira nacional ao lado da mesa escura onde o embaixador Luis Alberto Aparicio Bermúdez recebe a reportagem. De terno azul-claro e gravata rosa, bigode bem aparado e gestos firmes, o diplomata recebe Oeste para falar da aproximação com o Brasil, das oportunidades econômicas e do modelo de segurança que tornou seu país referência internacional. Antes, porém, faz uma ressalva: “Há muito mais em El Salvador do que a questão da segurança”.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

O novo embaixador de El Salvador no Brasil, Luis Aparicio, com Maria Laura da Rocha, secretária-geral do Itamaraty, ao receber o diplomata – 21/10/2024 | Foto: Divulgação/Itamaraty

Como o senhor avalia o atual estágio das relações entre El Salvador e o Brasil? Há novos acordos ou áreas prioritárias em negociação?

As relações completarão 120 anos em 2026 e estão em bom estado. Sempre há espaço para melhoria. Uma delegação brasileira esteve em El Salvador em 2023 para o mecanismo de diálogo político, e uma nova rodada está prevista para o próximo ano. Recebemos do Brasil a maior parte da cooperação em áreas como desenvolvimento agrícola, esportes e elaboração de biofertilizantes, entre outros. No acordo assinado em maio de 2025, está prevista a ida de 30 técnicos salvadorenhos da agroindústria ao Brasil para intercâmbio tecnológico. Também concluímos, em setembro, as negociações do acordo de Céus Abertos, que abrirá novas oportunidades para ambos os países. Além disso, estamos trabalhando para ingressar no Mercosul. Nosso objetivo é fortalecer relações não apenas entre governos, mas também entre setores produtivos. O Brasil tem grande potencial industrial, tecnológico e empresarial. Essa aproximação pode gerar projetos de cooperação, investimentos e parcerias diretas entre empresários dos dois países.

Quais são os principais setores econômicos de El Salvador? O que o país pode nos oferecer?

Temos setores importantes como têxteis, metal-mecânica, produtos químicos e pesca, além de café, produtos farmacêuticos, tecnologia e serviços, entre outros. Uma grande oportunidade é usar El Salvador como plataforma para que empresas brasileiras acessem o mercado dos Estados Unidos por meio do acordo de livre comércio da América Central, o Cafta. De Manaus a San Salvador é mais perto do que de Manaus ao Rio Grande do Sul, o que oferece vantagens logísticas e tributárias.

Há interesse em parcerias com o setor privado brasileiro, especialmente nesses setores?

Sim. Uma delegação do Rio de Janeiro esteve em El Salvador e avalia vários projetos na área de turismo. Temos mantido diálogo com a Confederação Nacional da Indústria e com federações industriais do Amazonas, Paraná, Rio de Janeiro e Rondônia. A cooperação pode avançar em energia, infraestrutura, inovação e logística, assim como em serviços financeiros.

O turismo em El Salvador cresceu consideravelmente. Que políticas de segurança e infraestrutura sustentam esse avanço?

O turismo cresceu graças a três pilares: segurança pública, investimentos em infraestrutura e diversidade geográfica. O projeto Surf City, desenvolvido em etapas, atrai competições internacionais — inclusive com a participação de vários campeões brasileiros de surfe — e está abrindo espaço para investimentos em hotéis e restaurantes. O país também oferece pontos turísticos relevantes, como vulcões, montanhas, praias e sítios arqueológicos da Ruta Maya, todos muito próximos uns dos outros na região, o que agrada aos visitantes.

O que o Brasil tem a aprender com El Salvador no combate ao crime organizado?

Cada país tem sua história. No nosso caso, um terço da população vive nos Estados Unidos, e muitos deportados por crimes organizaram gangues ao retornar. As estratégias anteriores não foram eficazes. O Plano de Controle Territorial combinou ações da Polícia Nacional Civil e do Exército para recuperar territórios, além de políticas de prevenção, como centros tecnológicos para jovens, distribuição de laptops e reformas educacionais para impedir o recrutamento deles pelas gangues.

O regime de exceção em El Salvador já dura mais de dois anos. Há previsão concreta para encerrá-lo ou o governo considera que essa ferramenta pode ser permanente?

O regime não é permanente, porém ainda não há prazo para encerrá-lo. O gabinete de segurança avalia a situação regularmente. O objetivo é concluir os processos judiciais dos detidos, impedir o surgimento de novas lideranças criminosas, manter o controle das comunicações nas prisões e desmantelar completamente a infraestrutura que sustentava as gangues. Ainda não é possível fixar uma data.

Organizações internacionais afirmam que milhares de inocentes teriam sido presos nas operações. Como o senhor vê essas afirmações?

Certas afirmações não correspondem à realidade e devem ser vistas com muita cautela, dependendo da fonte e dos interesses envolvidos. Uma operação dessa dimensão pode ter casos que precisam de revisão. Há um esforço institucional para analisá-los e resolvê-los o mais rápido possível, levando em conta as capacidades do Estado. É preciso lembrar como o país estava: bairros inteiros controlados por gangues, moradores obrigados a pagar taxas para circular e medo generalizado. Hoje, a diferença é visível. Para se ter uma ideia, El Salvador tem território do tamanho de Sergipe e, só no último ano, recebeu 4 milhões de visitantes, o que demonstra confiança na mudança que ocorreu.

Via Revista Oeste

Deixe seu comentário

Seu e-mail não será publicado. Campos obrigatórios estão marcados.