O último ano foi marcado pela aprovação, no Brasil e ao redor do mundo, dos primeiros medicamentos capazes de reduzir a progressão do Alzheimer, doença neurodegenerativa que afeta 1,2 milhão de brasileiros.
Os protagonistas da nova fase de tratamento são os anticorpos monoclonais, mas, em breve, uma nova classe de medicamentos promete fazer parte do rol. São os oligonucleotídeos antissensos (ASO), fármacos que se ligam a uma sequência específica do material genético de proteínas que estão envolvidas no desenvolvimento do Alzheimer.
Segundo dados preliminares da segunda fase do estudo clínico CELIA, uma droga experimental chamada diranersen (também conhecida pela sigla BIIB080) reduziu em até 65% os níveis da proteína tau no líquor (fluido que circula pelo cérebro) de pacientes em fase inicial de Alzheimer — melhorando o escore em diferentes avaliações cognitivas dos pacientes após 18 meses de tratamento.
A informação foi divulgada na última Conferência Internacional da Associação de Alzheimer, mas ainda não foi publicada em periódico científico — ou seja, ainda está em processo de revisão por cientistas não envolvidos no trabalho. “A proteína tau fica entre as células nervosas e praticamente sustenta as placas de beta-amiloide“, explica Tatiana Branco, diretora médica da Biogen, farmacêutica que está desenvolvendo a molécula.
As placas de beta-amiloide são depósitos de proteínas típicos de quem tem Alzheimer e são os alvos dos anticorpos monoclonais recém-aprovados contra a doença. Remover apenas essas placas, porém, ou reverte os prejuízos à memória ou ao comportamento.
Por isso, os cientistas segue em busca de novas drogas para melhorar a qualidade de vida de quem vive com a doença e tornar o tratamento mais eficaz. A seguir, confira a entrevista completa com a médica e entenda o que tem sido criado.
À VEJA SAÚDE, Tatiana Branco fala sobre prevenção e tratamentos para o Alzheimer.
Palavra de Especialista
VEJA SAÚDE: Os casos de Alzheimer no Brasil podem chegar a 4 milhões até 2050 — mas uma pesquisa da USP estima que mais da metade deles (54%) pode ser prevenida. O que o nosso país precisa priorizar até a metade do século para minimizar esse cenário?
Tatiana Branco: Na medida em que conseguimos controlar doenças cardiovasculares, diabetes, perda auditiva e visual, além de combater a baixa escolaridade, o isolamento social e o sedentarismo, entre outras ações, conseguiremos, sim, evitar o declínio cognitivo e a doença em boa parte dos casos.
Para isso, eu entendo que frentes como o governo, a iniciativa privada e a academia precisam trabalhar juntas. Estamos muito abertos para entender qual é o nosso papel em toda essa jornada.
A população nunca viveu tanto, o que significa que as demências serão cada vez mais comuns. E há um momento crucial de diagnóstico que poucos sabem reconhecer, que é justamente o princípio da doença, os primeiros sinais.
Se pudermos trabalhar em conscientizar as pessoas sobre isso e capacitar profissionais para rastrear o declínio cognitivo, podemos atuar com as ferramentas que temos hoje na prevenção e no tratamento precoce do Alzheimer. É preciso ter equidade no acesso à saúde.
Quando falamos em Alzheimer, os prejuízos à memória são os primeiros sintomas a vir à mente. Mas quais são os outros sinais, menos óbvios, que as pessoas devem estar atentas?
Primeiro, é importante saber que esquecer não faz parte de envelhecer. Esquecimentos frequentes sempre merecem atenção e avaliação médica. Mas, entre pacientes com Alzheimer diagnosticado no início, apenas 15% têm perda de memória.
Em que, então precisamos ficar de olho? Às alterações de comportamento — é muito comum ver pessoas que antes eram tranquilas e comunicativas se tornarem mais agitadas, agressivas ou introspectivas.
Além disso, aquelas que cuidavam muito bem da sua rotina e passam a ter dificuldades de tomar decisões e, por exemplo, gerir suas finanças também necessitam ser avaliadas.
Esse estágio inicial da doença, que é o menos diagnosticado, é também a única janela para o uso da nova geração de medicamentos para o Alzheimer, os anti-amiloides. Como eles funciona essa classe?
Tatiana Branco: São medicações que atuam na remoção de placas de beta-amiloide, uma proteína que se acumula no cérebro, causando neuroinflamação, e que pode contribuir para o desenvolvimento do Alzheimer.
O lecanemabe
[medicamento desenvolvido pela Biogen] tem duas ações inovadoras nesse sentido: além de retirar essa placa, ele evita que novas se formem. Então, a manutenção do tratamento, feito quinzenalmente, reduz a progressão da doença.
O que isso quer dizer para o paciente? Não é a cura, mas a doença vai demorar mais a avançar?
Isso. Com esse tipo de tratamento, as pessoas podem ganhar um pouco mais de tempo com independência e ressocialização. O Alzheimer é uma doença com sinais e sintomas muito variáveis, então, o que se observa em um paciente pode ser diferente do outro.
O que foi mostrado com estudos com lecanemabe foi que ele reduz em cerca de 27% a velocidade do avanço da doença, em um período de 18 meses, comparado a pacientes que não usaram o medicamento.
Os cientistas tinham a expectativa de que, ao retirar as placas de beta-amiloide, poderiam curar a doença. Não é o que foi visto nos ensaios clínicos, e agora estuda-se o papel de outras proteínas no desenvolvimento do Alzheimer. Há medicamentos com outros alvos em desenvolvimento pela Biogen?
Estamos desenvolvendo uma medicação que, como foi divulgado no último congresso internacional sobre Alzheimer, visa remover o acúmulo de proteína tau, também envolvida na disfunção cognitiva e na neuroinflamação provocada pela doença de Alzheimer.
Então, o que sabemos hoje é que há outras proteínas que se aglomeram no encéfalo e que podem até estar por trás do surgimento e da conservação das placas da beta-amiloide. A proteína tau, por exemplo, fica entre as células nervosas e praticamente sustenta as placas.
Contra essa proteína, está sendo testado o BIIB080. Ao contrário do lecanemabe, ele não é um anticorpo monoclonal, mas sim um oligonucleotídeo antissenso. São pequenas fitas sintéticas que se ligam a uma sequência específica de RNA mensageiro [mRNA]. É assim que a droga identifica a proteína tau e consegue varrê-la do cérebro.
A fórmula experimental consegue fazer essa “limpeza” de forma eficiente e sutil, evitando que edemas e hemorragias se instaurem no processo. É o que tem sido observado nas fases clínicas do estudo CELIA.