No agronegócio brasileiro, poucos nomes personificam tão bem o processo de transformação do campo como Eraí Maggi Scheffer. Considerado o novo “Rei da Soja”, o empresário comanda o Grupo Bom Futuro, conglomerado que ultrapassou o ramo da produção agrícola para se tornar uma potência logística, energética e industrial, com um faturamento que supera os R$ 6 bilhões anuais, segundo estimativas do mercado.
Com mais de 700 mil hectares de área cultivada – superior ao território de países como Brunei, Cabo Verde e Trinidad e Tobago –, a empresa produz a cada ano cerca de 1,9 milhão de toneladas de grãos e 360 mil toneladas de pluma de algodão. O império detém ainda 12 usinas hidrelétricas e três fotovoltaicas, além do maior aeroporto privado do Centro-Oeste, em Cuiabá.
Além de expressivos, os números chamam a atenção pelo forte contraste com os de sua origem, no Sul do país. Na década de 1970, os Maggi Scheffer cultivavam uma área de apenas 65 hectares na cidade de São Miguel do Iguaçu, no Oeste do Paraná, operando sob o modelo tradicional de pequenos colonos.
A família, liderada por Antônio Clarismundo Scheffer e Luzia Maggi Scheffer, migrara, anos antes, da pequena Três Cachoeiras, no litoral norte do Rio Grande do Sul, em busca de uma vida melhor no interior paranaense.
Nesse cenário é que Eraí Maggi, terceiro de sete irmãos, forjou sua ética de trabalho. “Aos 9 anos, além de frequentar a escola, pegava no pesado na lavoura e cedinho acordava para tirar leite das vacas”, conta o historiador Nei Duclós, no livro A Marcha do Grão de Ouro.
Com a morte de precoce do patriarca da família em um acidente, em 1976, aos 18 anos assumiu a gestão dos negócios agrícolas, em um ambiente econômico de severa restrição de crédito. “A gente tinha trator, mas a terra ainda era cara. Resolvíamos o problema alugando os sítios dos vizinhos”, relatou o empresário em 2002, em entrevista à revista IstoÉ Dinheiro.
A estratégia de arrendar terras alheias para otimizar a capacidade ociosa do maquinário seria a espinha dorsal de sua agressiva expansão para o Centro-Oeste. Além de maximizar a eficiência de terras que não possuía, passou a operar com o risco e a coordenar equipes.
Em pouco tempo, contornando os limites produtivos por meio do arrendamento, Eraí conseguiu multiplicar sua área cultivada, passando a operar cerca de 100 alqueires em apenas cinco anos. O encarecimento das terras no território paranaense, no entanto, tornou-se um obstáculo em seu caminho.
** Esta matéria faz parte da série de reportagens Apesar do Estado, da Gazeta do Povo, que retrata a trajetória de grandes empresários brasileiros que venceram os desafios de empreender em um dos ambientes de negócios mais hostis do mundo. Confira outros textos da série neste link.
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A abertura do Cerrado e a migração de Eraí para Mato Grosso
Entre o final da década de 1970 e o início de 1980, a política de integração nacional incentivava a migração para o Centro-Oeste brasileiro, transformando o bioma do Cerrado num vasto canteiro de testes agronômicos.
Nessa fase, Eraí contou com uma importante ajuda de seu tio materno, André Maggi, que identificou uma oportunidade de arrendamento em Rondonópolis, no sul de Mato Grosso. As terras, denominadas Fazenda Bom Futuro, pertenciam a três médicos paulistas e totalizavam 2,5 mil hectares vocacionados para a agricultura e 1 mil hectares para a pecuária.
No arranjo que organizaram, o tio daria a garantia financeira e o capital de giro, enquanto os sobrinhos entrariam com a força de trabalho e a gestão direta no campo. Era 1982 quando Eraí liquidou a propriedade da família no Paraná e utilizou o capital para migrar definitivamente para o Centro-Oeste.
A estratégia do negócio revelou-se altamente lucrativa. Os pagamentos anuais aos proprietários das terras eram realizados diretamente em sacas de soja, blindando a operação contra a instabilidade da moeda brasileira da época.
Em 1984, diante dos bons resultados, a família investiu na aquisição de terras próprias em um distrito de Campo Novo do Parecis, também no Mato Grosso, onde hoje fica o município de Sapezal.
Em 1994, a Fazenda Bom Futuro sofreu um forte prejuízo em razão de uma estiagem que gerou perdas na lavoura e no caixa do negócio. “Aí o tio André perguntou se a gente queria tocar a fazenda sozinhos”, relatou Eraí em registro do site do Grupo Bom Futuro.
Com o direito de preferência e capitalizado pelos lucros subsequentes, a compra definitiva da Fazenda Bom Futuro pelos Maggi Scheffer foi oficializada em 1995. Tinha início o império do Grupo Bom Futuro, abrindo caminho para uma escalada sem precedentes na história da agricultura tropical.
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A estratégia de expansão parcelada
Com a base consolidada em Rondonópolis, Eraí adotou uma doutrina de expansão geográfica metódica, financiando novas aquisições com os fluxos de caixa operacionais e linhas de crédito. A expansão ocorreu por meio de um avanço tático sobre áreas de transição no Cerrado.
Sapezal, município que nasceria essencialmente em redor da infraestrutura agrícola instalada pela família, tornou-se o principal polo de crescimento da Bom Futuro.
Nos anos 1990, alavancados pela venda estratégica de terras ao grupo Ceval, que demandavam áreas para eucalipto, os irmãos realizaram pesadas aquisições na região de Campo Verde. “O projeto era comprar 10 mil hectares, compramos 3 mil e fomos comprando mais, de maneira fracionada”.
A abordagem permitiu que cada nova parcela adquirida fosse rapidamente incorporada ao ciclo produtivo e gerasse o seu próprio retorno sobre o investimento antes da etapa seguinte.
Foi em Campo Verde que, em 1998, a Bom Futuro instalou a sua primeira Indústria de Beneficiamento de Algodão (IBA), na Fazenda Santo Antônio, um marco que assinalaria a transição da empresa de mera produtora de grãos para o complexo agroindustrial.
No ano 2000, as operações estenderam-se de forma vigorosa para a região do Médio Norte de Mato Grosso, consolidando uma vasta rede logística que abrangia mais de 100 mil hectares de área cultivada logo no início da década.
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Como Eraí desbancou o primo Blairo e se tornou o novo Rei da Soja
Durante muito tempo, o título informal de “Rei da Soja” no Brasil esteve nas mãos de seu primo, Blairo Maggi, que, por sua vez, o herdara de Olacyr de Moraes. A coroação de Eraí ocorreu no início dos anos 2000, em meio a uma divergência estratégica entre os dois ramos da família.
Sob a liderança de Blairo, a Amaggi decidiu redirecionar seu capital, voltando o negócio para outras etapas da cadeia do agronegócio (trading, infraestrutura hidroviária no Rio Madeira, esmagamento de sementes e exportação) e passando a originar soja produzida por terceiros para abastecer os mercados globais.
Eraí, em contrapartida, desenvolveu investiu cada vez mais no domínio sobre a atividade primária, dando ênfase na operação “dentro da porteira”. Seu foco prioritário no aumento da produção permitiu à Bom Futuro atingir taxas de expansão da área cultivada superiores a 20% ao ano.
Na safra de 2005/2006, os números indicavam que a virada na liderança estava próxima; no ciclo de 2009/2010, a diferença já era insuperável. Nessa temporada, Eraí plantou 223 mil hectares da oleaginosa — a maior extensão alguma vez cultivada por um único produtor no país. O grupo de Blairo cultivou cerca de 168 mil hectares no mesmo período.
Duas decisões foram cruciais para a consolidação desse domínio: a rápida adoção de tecnologias de agricultura de precisão para elevar as produtividades muito acima da média nacional (ultrapassando as 66 sacas por hectare em grandes extensões); e o arrendamento contracíclico de áreas.
Ao assumir o risco direto da produção, a Bom Futuro sacrificou a presença na exportação direta, mas monopolizou a oferta na origem, tornando grandes tradings, como Bunge, Cargill, Sadia e a própria Amaggi, dependentes dos seus volumes.
Fiel ao Mato Grosso, Eraí usa crédito em dólar para contornar variação cambial
A sustentação de taxas de crescimento de dois dígitos em um setor caracterizado pela volatilidade climática ancorou-se em dois pilares: a contratação de crédito em dólar e a fidelidade geográfica ao Mato Grosso.
Ao contrário de outros conglomerados agrícolas contemporâneos que pulverizaram o risco geográfico expandindo-se para a fronteira do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), o atual Rei da Soja concentra 100% dos seus esforços de expansão no Mato Grosso. Sua lógica é baseada no clima, mas também no retorno sobre o capital.
A grande vantagem competitiva de Mato Grosso é a capacidade de realizar duas safras plenas anuais (soja no verão, e milho e algodão na “safrinha”), graças ao ciclo de chuvas altamente previsível.
“Cada vez que eu vou num outro Estado, mais eu quero ficar no Mato Grosso. Aqui, o clima é muito firme e as terras, muito bacanas”, disse, no ano passado, ao portal The Agribiz.

Ao longo das décadas, o empresário optou por financiar as suas operações em dólar, abandonando linhas de crédito rural subvencionadas tradicionais, como o Plano Safra.
Como as commodities que produz, como soja, algodão e milho, são precificadas em dólar na Bolsa de Chicago, endividar-se na moeda norte-americana elimina o risco cambial estrutural, ao mesmo tempo que liberta a empresa das altas taxas de juro praticadas no Brasil.
Ele defende abertamente que os médios produtores devem perder o medo de contrair dívidas dolarizadas como mecanismo de defesa contra o encarecimento do crédito local.
O modelo provou a sua eficácia em cenários de crise econômica, como entre 2005 e 2007, quando o agronegócio mato-grossense atravessou sua fase mais crítica em quarenta anos, com a praga da ferrugem asiática, excesso de chuvas, quebra nas cotações internacionais e a alta valorização do real frente ao dólar.
Milhões de hectares deixaram de ser cultivados em razão do colapso financeiro de milhares de produtores. Na ocasião, o Grupo Bom Futuro atuou de forma contracíclica. Eraí aproveitou a descapitalização dos seus pares para fechar parcerias de longo prazo, assumindo terras de grupos endividados em troca de financiamento do custeio. Apenas nesses dois anos, a área cultivada do grupo saltou de 110 mil para cerca de 160 mil hectares.
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As novas aquisições bilionárias do Grupo Bom Futuro
Engana-se quem pensa que a agressividade para a aquisição de terras ficou no passado. Em 2025, o grupo desembolsou perto de R$ 1,8 bilhão à vista pelas fazendas Itaipu e Tupi Barão, que pertenciam ao fundo de private equity americano Proterra, incorporando de imediato 43 mil hectares ao seu portfólio.
Nesta semana, a Bom Futuro desembolsou R$ 871,25 milhões por 18,7 mil hectares que pertenciam à Radar, companhia controlada pela Cosan, demonstrando sua capacidade de liquidez em meio a uma onda de recuperações judiciais no setor.
** A reportagem da Gazeta do Povo solicitou entrevista com Eraí Maggi Scheffer por meio da assessoria de imprensa do Grupo Bom Futuro, mas não teve resposta da empresa até a publicação desta matéria.