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Cientistas encontram reserva ‘secreta’ de água doce nos EUA

Durante uma missão inédita, pesquisadores encontraram água doce debaixo do oceano Atlântico Norte, revelando um vasto aquífero escondido entre os Estados de Nova Jersey e Maine, nos EUA.

A “Expedição 501” coletou amostras sob as águas próximas ao Cape Cod, no Estado de Massachusetts, e reacendeu o debate sobre novas fontes hídricas.

Descobertas feitas há quase 50 anos serviram de base para a expedição. É que perfurações anteriores no fundo do mar identificaram água potável sob as águas salgadas da região.

Agora, os pesquisadores extraíram milhares de litros desse recurso para análise. Eles querem entender a origem do aquífero. A água pode ser resultado de antigos glaciares, sistemas subterrâneos conectados ao continente ou uma combinação desses fatores.

Potencial hídrico da reserva de água doce

Os cientistas afirmam que essas reservas de “água doce secreta” existem em vários locais rasos abaixo do mar ao redor do planeta.

“Precisamos buscar todas as alternativas possíveis para abastecer a sociedade”, afirmou Brandon Dugan, geofísico da Colorado School of Mines e um dos líderes da expedição, à Associated Press.

O volume de água identificado surpreendeu os especialistas, sendo localizado em profundidades diferentes do esperado.

A expectativa é que a reserva seja suficiente para suprir uma metrópole do porte de Nova York por até 800 anos. No entanto, a extração em larga escala enfrenta desafios técnicos, ambientais e legais.

Desafios do consumo de água e impacto dos data centers

O uso crescente de água por data centers, por exemplo, já representa um quarto do consumo energético na Virgínia, com previsão de quase dobrar em cinco anos. Cada centro de porte médio consome o equivalente a mil residências.

Estados localizados nos Grandes Lagos, no Canadá, no Havaí e em Jacarta também enfrentam problemas de abastecimento.

A expedição 501 recebeu apoio da Fundação Nacional de Ciência dos EUA e do Consórcio Europeu de Pesquisa em Perfuração Oceânica, envolvendo mais de 12 países, e custou US$ 25 milhões. O projeto utilizou o navio Liftboat Robert, que atuou como base de operações por três meses.

As perfurações atingiram até 400 metros abaixo do leito marinho, superando projetos anteriores, que haviam apenas mapeado os contornos desses aquíferos por sensores eletromagnéticos.

A ideia de investigar diretamente nunca havia sido implementada em escala mundial, segundo Jez Everest, gerente do projeto e pesquisador do British Geological Survey.

O interesse por água doce sob o mar remonta a 1976, quando poços de teste e expedições federais já haviam identificado volumes consideráveis desse recurso em perfurações entre a Geórgia e o Banco Georges, em New England. Essas iniciativas abriram caminho para as pesquisas atuais.

Descobertas durante a expedição e análise das amostras

Logo nos primeiros dias de perfuração, os pesquisadores identificaram amostras com apenas quatro partes por mil de salinidade, indicando uma possível conexão histórica com sistemas terrestres.

Com o avanço dos trabalhos, algumas amostras atingiram uma parte por mil, padrão compatível com água própria para consumo humano.

Os cientistas dedicarão os próximos meses à análise laboratorial, investigando propriedades químicas, a presença de microrganismos e possíveis riscos à saúde.

Jocelyne DiRuggiero, bióloga da Johns Hopkins University, alerta que minerais nocivos podem estar presentes, mas ressalta que aquíferos terrestres se formam por processos similares e, em geral, oferecem água de alta qualidade.

Os cientistas também buscarão determinar se a água é remanescente de degelo de eras passadas ou se ainda recebe recarga de fontes continentais. A idade do recurso é fundamental para avaliar se pode ser renovável e explorada de forma sustentável no futuro.

Próximos passos

No plano prático, dúvidas sobre gestão, impactos ambientais e viabilidade econômica serão debatidas antes de qualquer utilização.

“Se governos decidirem explorar, comunidades poderiam recorrer ao aquífero em crises, como secas ou inundações”, disse Dugan, destacando que o tema ainda é novo para muitos formuladores de políticas públicas.

Rob Evans, geofísico do Woods Hole, lembra que retirar água do subsolo marinho pode afetar aquíferos terrestres ou ecossistemas que dependem desse fluxo.

“Se começarmos a bombear essas águas, provavelmente haverá consequências imprevistas”, afirmou, ressaltando a necessidade de cautela.

Durante a expedição, o acesso ao Liftboat Robert exigia viagens de sete horas a partir de Fall River, Massachusetts, com revezamento de equipes a cada dez dias.

A rotina no navio alternava o barulho das máquinas de perfuração e o trabalho minucioso dos cientistas em laboratórios improvisados.

As amostras, separadas conforme as demandas das diversas áreas de pesquisa, passaram por processos específicos de preservação e análise.

Depois de seis meses de estudos, todos os cientistas envolvidos na Expedição 501 se reunirão na Alemanha para discutir os dados e traçar as primeiras conclusões sobre a idade e a procedência da água extraída do subsolo oceânico.

Via Revista Oeste

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