A China deixou de ser apenas a maior cliente do frango brasileiro para se tornar concorrente direta e já ameaça tomar dos frigoríficos seus mercados mais rentáveis no Oriente Médio.
Em menos de uma década, o país saltou de uma fatia ínfima das exportações globais para 9,5% estimados em 2026, mudando a dinâmica da exportação de frango no mundo. Apesar da rápida expansão da produção chinesa, entretanto, os números ainda favorecem o Brasil.
Segundo estimativa do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), as exportações chinesas aumentaram 41% em 2025, para quase 1,1 milhão de toneladas. Em 2026, devem chegar a 1,4 milhão de toneladas, tornando a China o terceiro maior exportador do mundo, atrás apenas do Brasil e dos Estados Unidos.
Uma rápida expansão da produção doméstica sustentou essa mudança. A China já é o segundo maior produtor de frango do mundo, com o USDA estimando um crescimento de produção de 7% em 2025 e mais 5% em 2026, chegando a 17,3 milhões de toneladas. Algumas estimativas do setor são ainda mais agressivas, apontando para crescimento de dois dígitos nos dois anos.
Segundo nota do BTG Pactual divulgada no último dia 17, a implicação imediata é direta: mais oferta exportável, mais concorrência e, mantidas as demais condições, pressão adicional sobre os preços globais do frango.
A nota do banco observa ainda que dados confiáveis sobre os custos unitários dos produtores chineses são escassos. Ainda assim, o histórico da China de escalar rapidamente diversos setores sugere que seria imprudente subestimar seu potencial de se tornar um dos produtores de frango de menor custo do mundo.
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China avança sobre mercado mais valioso do frango brasileiro
A composição de produtos adiciona outra camada à concorrência. A China continua importando grandes volumes de pés de frango e outros produtos preferidos pelos consumidores locais, ao mesmo tempo em que exporta cada vez mais cortes com demanda interna mais fraca, incluindo o peito de frango.
Isso acende um sinal amarelo para o Brasil, já que o peito de frango foi o corte mais exportado pelo país nos últimos 12 meses. Representou 22% do volume total de exportações de carne de frango e teve um dos preços unitários mais elevados.
A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos estão entre os destinos mais importantes do Brasil para o peito de frango, e ambos estão geograficamente mais próximos da China. É justamente nesse mercado que a concorrência chinesa tende a crescer.
Analistas do BTG Pactual observam que, se a China continuar expandindo a produção e garantindo acesso a novos mercados, pode se tornar um risco estrutural relevante de precificação para os exportadores brasileiros.
Avanço da China ainda não freia exportações brasileiras
O cenário de pressão, contudo, ainda não se materializou nos números de curto prazo. As exportações brasileiras de carne de frango (considerando todos os produtos, entre naturais e processados) totalizaram 482,8 mil toneladas em junho, segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA).
O volume supera em 40,6% o registrado no mesmo período de 2025, quando foram embarcadas 343,4 mil toneladas.
Entre os principais destinos das exportações brasileiras em junho, a China manteve a liderança, com 50,1 mil toneladas. Na sequência vem Japão (46,6), Emirados Árabes Unidos (46,2 mil), Arábia Saudita (33,1) e União Europeia (28).
Dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) compilados em um relatório da Consultoria Agro do Itaú BBA confirmam o cenário de forte desempenho para as exportações brasileiras no primeiro semestre, impulsionadas por volumes e receitas crescentes.
Os embarques alcançaram 2,5 milhões de toneladas — avanço de 14% na comparação com o primeiro semestre de 2025. O preço médio ficou em US$ 1.961,2 por tonelada, alta de 4%. Apenas em junho, o volume exportado saltou 45% na comparação anual segundo o critério do Secex.
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