A pandemia de Covid-19, que gerou muita divisão nos Estados Unidos entre 2020 e 2022, voltou a ser protagonista na política do país desde a semana passada.
Primeiro, veio a divulgação do diário do médico Anthony Fauci, que coordenou a resposta do governo dos Estados Unidos à Covid-19, com trechos em que ele chamou o presidente Donald Trump de “desconexo”, “idiota” e “adolescente insuportável”, entre outras ofensas, e abordou as teorias a respeito da origem do coronavírus.
Depois, veio a audiência no Senado americano, na qual Fauci invocou seu direito à Quinta Emenda da Constituição americana, que protege contra a autoincriminação, para não responder a mais de cem perguntas sobre as origens da pandemia e as ações do médico durante esse período.
Em um pronunciamento inicial antes de se recusar a responder aos questionamentos, o médico alegou que os republicanos têm uma “óbvia obsessão” em colocá-lo “atrás das grades”.
A guerra política da Covid-19 não deve parar por aí. Diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas entre 1984 e 2022, Fauci é acusado pelos republicanos de ter escondido informações sobre a origem da Covid-19 e ter errado na condução da resposta à pandemia.
No final da sua gestão, o presidente democrata Joe Biden (2021-2025) concedeu um perdão presidencial preventivo a Fauci contra eventuais acusações federais por questões relativas à pandemia, mas ele ainda pode ser alvo de processos judiciais nos estados.
Desde a audiência da semana passada, vários estados governados pelo Partido Republicano estão anunciando investigações contra o médico.
“Fauci mentiu. Louisiana e Missouri interrogaram o doutor Fauci. À época, ele alegou não se lembrar de muitos detalhes importantes das suas próprias ações e agora estamos descobrindo registros contemporâneos que ele mantinha”, escreveu a procuradora-geral da Louisiana, Liz Murrill, em post no X, fazendo referência ao diário do médico.
“A Louisiana se unirá ao Alabama e à Flórida na investigação de Fauci para apurar se ele cometeu outras infrações que poderiam ser processadas em nossos tribunais estaduais”, acrescentou a procuradora.
Ao anunciar na semana passada a abertura de uma investigação sobre Fauci, o procurador-geral da Flórida, James Uthmeier, acusou o médico de “falta de sinceridade inacreditável”.
“Meu gabinete está iniciando uma investigação sobre o doutor Fauci. Já passou da hora de descobrirmos a verdade sobre o que aconteceu durante a Covid”, disse Uthmeier.
Em entrevista à emissora CBS, o senador republicano Rand Paul, que convocou Fauci para a audiência, disse que o silêncio do médico perante o Senado americano pode levar a acusações criminais federais por desacato ou obstrução de um procedimento do Congresso.
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Paul, que foi o responsável por tornar público o conteúdo do diário de Fauci, acusa o médico há anos pelo financiamento dos Estados Unidos a pesquisas no laboratório de Wuhan, na China, com ganho de função, ou seja, que fazem um organismo desenvolver novas habilidades e se tornar mais perigoso.
Em 2021, o Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, ainda comandado por Fauci, disse que ocorreu financiamento americano a pesquisas na China, mas elas não teriam envolvido ganho de função.
Na outra ponta do espectro político, os democratas defendem Fauci. Na audiência da semana passada, a senadora Maggie Hassan defendeu o médico e criticou o atual secretário de Saúde dos EUA, Robert F. Kennedy Jr., afirmando que os republicanos não têm interesse em investigar os atuais surtos de sarampo e a propagação do parasita cyclospora, transmitido por alimentos.
“Estamos aqui tentando armar uma cilada porque o senhor teve uma carreira distinta, sempre buscando colocar a saúde pública dos americanos em primeiro lugar”, disse Hassan a Fauci. A senadora chamou Kennedy de “o secretário de Saúde e Serviços Humanos mais despreparado que este país já viu”.
Em entrevista a uma afiliada da CBS na semana passada, o advogado e comentarista jurídico Patrick McKamey afirmou que Fauci pode ser investigado nos estados americanos por acusações de conspiração, crime que “não possui prazo de prescrição”, com base na alegação de que ocorreu “fraude à população ao ocultar informações sobre a origem” do vírus e o fato de que Fauci “financiou o mesmo laboratório que criou o vírus da Covid-19”, segundo a teoria defendida pelos republicanos.
O especialista citou também eventuais acusações por infração de leis sobre comércio interestadual. “As políticas recomendadas por ele [durante a pandemia] interferiram no comércio interestadual”, argumentou McKamey.
Especialista aponta possível impacto nas midterms
Em entrevista à Gazeta do Povo, Igor Lucena, economista e doutor em relações internacionais, disse que os republicanos visam Fauci por considerá-lo “como uma espécie de líder político e ideológico das políticas de combate à pandemia”.
“Fauci foi muito associado às medidas de confinamento e ao uso de máscaras, enquanto muitos estados republicanos adotaram políticas diferentes. A Flórida, por exemplo, não fechou as escolas por tanto tempo e, ainda assim, não registrou uma mortalidade infantil maior por conta da Covid-19”, disse Lucena.
Porém, o especialista argumentou que não há “nada de simples do ponto de vista científico nessa discussão”, já que a pandemia de Covid-19 teve como última experiência comparável outra ocorrida há mais de cem anos, com a gripe espanhola, “em um contexto no qual as formas de contágio e até mesmo as estratégias de combate eram completamente diferentes”.
“Por isso, acredito que a retomada desse debate hoje tenha um componente muito mais político, na tentativa de descredibilizar o governo de Joe Biden e, consequentemente, os democratas que o apoiaram”, afirmou o analista.
“Para os republicanos, o tema pode ser utilizado como instrumento político nas eleições de meio de mandato [em novembro], especialmente para reforçar a narrativa de que houve erros na condução da pandemia e de que os democratas teriam adotado determinadas políticas de maneira excessivamente ideológica. O potencial impacto eleitoral dependerá, no entanto, de quanto esse debate conseguirá permanecer relevante para o eleitorado até as midterms”, projetou Lucena.