A situação econômica da Argentina foi um dos argumentos explorados pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, para atacar o presidente argentino, Javier Milei, em meio à crise diplomática que tensiona a relação entre as duas maiores economias da América do Sul.
Embora a Argentina ainda apresente desempenho inferior ao do Brasil em diversos indicadores, a crise econômica do país não decorre da gestão Milei, que tem adotado medidas que reverteram parte dos desequilíbrios macroeconômicos herdados, como o déficit nas contas públicas e a percepção de risco no país.
Na avaliação de economistas ouvidos pela Gazeta do Povo, é justamente o Brasil que tem lições a aprender com a Argentina, e não o contrário.
Na segunda-feira (27), referindo-se a Milei como “palhaço”, Durigan citou, em entrevista à Rádio Jornal, de Pernambuco, que o risco país, a dívida pública e a inflação do país são muito mais altos do que os do Brasil.
Para Marcos Vinícius Oliveira, economista da ZIIN Investimentos, embora o discurso do ministro seja verdadeiro, ele omite um dado importante, que é a tendência futura dos indicadores citados.
“Essa comparação estática esconde o que realmente importa para quem olha principalmente risco e investimento, que é a direção”, afirma.
Ele destaca que a Argentina partiu, na posse de Milei, de uma inflação anual superior a 200% e de uma dívida pública em torno de 156% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo dados do próprio governo argentino e do Fundo Monetário Internacional (FMI).
A situação foi herdada do governo de Alberto Fernández, amigo e aliado político de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
“Hoje a inflação mensal oficial está na casa de 2%, e a dívida caiu para 78,4% do PIB, conforme os números divulgados no fim do ano passado.” Além disso, o país teve, em 2024, o primeiro superávit primário em 14 anos (equivalente a 1,8% do PIB), repetindo o feito em 2025, com o indicador em 1,4% do PIB, acima da meta acordada com o FMI (1,3%).
Parte do resultado se deve ao próprio crescimento do PIB argentino, que em 2025 avançou 4,4%. No mesmo ano, o PIB brasileiro cresceu 2,3%.
Os números fizeram com que o risco país argentino, medido pelo Índice EMBI+ da JP Morgan, recuassem de 1,4 mil pontos, em dezembro de 2023, para 443 em junho deste ano, uma queda de 70%.
“Isso é uma trajetória de correção muito rápida e bastante consistente”, diz Oliveira. “Quando a gente olha para o Brasil no mesmo período, estamos andando na direção contrária nos mesmos indicadores.”
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Argentina teve superávit enquanto Brasil registrou déficit primário em 2024 e 2025
Conforme dados do Tesouro Nacional, o governo brasileiro apresentou déficit primário de R$ 43 bilhões em 2024 e de R$ 61,7 bilhões em 2025. De acordo com o Banco Central (BC), em maio a dívida bruta brasileira chegou a 81,1% do PIB, o maior nível em cinco anos.
Já a projeção oficial da inflação está em 5,1%, segundo boletim macrofiscal divulgado neste mês pela Secretaria de Política Econômica (SPE), do Ministério da Fazenda. A meta do BC é de 3%, com limite de tolerância até 4,5%.
“Ou seja, ainda que o Brasil esteja em um patamar superior, a Argentina está subindo a ladeira, enquanto o Brasil está descendo, digamos assim”, compara Oliveira.
Poucos governos conseguiram ajuste fiscal como o de Milei, diz economista
Para Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos, as críticas do governo brasileiro ao modelo argentino partem de uma constatação verdadeira: a Argentina ainda enfrenta enormes desafios sociais.
“Mas elas ignoram outra verdade igualmente objetiva: poucos governos conseguiram promover um ajuste fiscal tão profundo em tão pouco tempo”, afirma.
Ela ressalta que o país saiu de déficits recorrentes para registrar superávits primários, feito que parecia impossível há poucos anos. “As contas públicas não respondem a discursos; respondem à calculadora”, diz.
Para Olívia, a inflação é um dos exemplos mais emblemáticos. Embora o indicador oficial da Argentina ainda permaneça elevado, “despencou em relação ao ponto de partida, refletindo o fim do financiamento do gasto público pela emissão monetária”.
“Reduzir uma inflação crônica não é apenas uma vitória estatística. É devolver previsibilidade para famílias, empresas e investidores. A inflação nunca foi um fenômeno moral, sempre foi um fenômeno fiscal”, comenta.
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Enquanto Lula aumenta despesas, Milei cortou gastos em 27% só no primeiro ano
Um dos grandes diferenciais entre os modelos adotados por Milei e por Lula, segundo os economistas, é a qualidade do ajuste fiscal. Enquanto a estratégia do Brasil é o aumento da arrecadação, o governo argentino cortou gastos públicos.
“O gasto primário [argentino] caiu 27% em termos reais em 2024, com mais de 1,3 mil normas eliminadas e mais de 200 órgãos estatais fechados. Historicamente, o ajuste pelo lado do gasto tende a ser mais estrutural e mais respeitado pelo mercado do que o ajuste pelo lado da receita, que costuma ser mais transitório”, diz Oliveira.
Para os analistas ouvidos pela reportagem, a Argentina ainda tem desafios a serem superados, mas há lições que o Brasil pode extrair do modelo adotado por Milei.
“A âncora fiscal, o compromisso com o superávit como meta mensurável, o ajuste concentrado em despesa, não em receita, isso é exatamente o que falta no nosso ponto de vista ao Brasil”, diz Oliveira.
“Usar a Argentina como bode expiatório político é fácil, mas ignorar o que funcionou lá do lado fiscal é um erro”, acrescenta.
Para a CEO da Magno Investimentos, a grande lição para o Brasil não está em copiar políticas, mas em compreender princípios.
“Há uma diferença importante entre crescer distribuindo gasto público e crescer distribuindo confiança. O primeiro modelo costuma produzir manchetes rápidas e inflação persistente. O segundo demora mais para aparecer, mas normalmente entrega juros menores, investimentos maiores e crescimento mais sustentável.”