Poucas palavras aparecem tanto nas conversas sobre alimentação quanto “inflamação”. E em meio a essas conversas, é muito frequente algum alimento ser citado erroneamente como inflamatório, como por exemplo: o leite, o glúten, o açúcar, o café e até mesmo o pão.
Em algum momento, parece que quase tudo o que comemos passou a carregar essa ameaça invisível, mas será que é assim mesmo? A resposta curta é: não!
A inflamação não é uma palavra mágica para explicar qualquer desconforto, cansaço, inchaço ou dificuldade para emagrecer. Ela é uma resposta natural do organismo, fundamental para a defesa e a recuperação do corpo. Quando temos uma infecção, um machucado ou uma agressão ao tecido, o processo inflamatório entra em ação para ajudar na reparação.
O problema começa quando essa resposta deixa de ser pontual e passa a se manter de forma crônica e silenciosa. E é aqui que a conversa costuma se perder.
O que realmente favorece a inflamação crônica
Nas redes sociais, a inflamação virou quase uma culpa individual colocada sobre alimentos isolados, mas na realidade o que mais favorece um estado inflamatório persistente não costuma ser um único ingrediente, é o conjunto da rotina.
Dormir mal inflama. Viver sob estresse constante inflama. Ser sedentário inflama. Consumir álcool em excesso inflama. Ter uma alimentação pobre em frutas, verduras, legumes, grãos integrais e inflama. Ganhar gordura abdominal inflama. Passar anos comendo de forma desorganizada, sem variedade e com baixa qualidade nutricional, também pesa muito mais do que um alimento específico.
Isso não significa que todas as pessoas tolerem todos os alimentos da mesma forma. Por exemplo, quem tem doença celíaca precisa excluir o glúten, quem tem alergia à proteína do leite deve excluir leite e derivados e quem tem intolerância a lactose pode precisar ajustar o consumo.
Ou seja, existem condições clínicas reais que exigem diagnóstico e orientação individualizada. Contudo, transformar essas exceções em regra para todo mundo, é um erro grave.
O risco de demonizar alimentos
O perigo desse discurso é que ele simplifica demais um tema tão complexo. As pessoas começam a retirar o leite, o glúten, o café, o feijão, as frutas ou carboidratos de uma forma geral da alimentação acreditando que está “desinflamando” o corpo.
Muitas vezes, porém, o que acontece é o contrário: a dieta fica mais restrita, menos prazerosa, menos diversa e, em alguns casos, até mais pobre em nutrientes importantes.
A verdadeira alimentação anti-inflamatória
Uma alimentação com potencial anti-inflamatório não nasce do medo. Nasce da qualidade. Ela se parece muito mais com um prato variado, colorido e possível de sustentar no dia a dia do que com uma lista enorme de proibições. Inclui verduras, legumes, frutas, feijões, azeite, castanhas, sementes, cereais integrais, peixes, ovos e lácteos quando bem tolerados.
Além disso, ter uma boa noite de sono, praticar atividade física, manejar o estresse, ter uma saúde intestinal equilibrada e uma relação menos ansiosa com a comida, são práticas anti-inflamatórias que devem ser incorporadas na rotina.
A pergunta que realmente importa
Talvez a pergunta mais importante não seja “esse alimento inflama?”, mas sim “como está o meu estilo de vida como um todo?”.
Nenhum alimento isolado deveria carregar sozinho a culpa por uma rotina inteira. A inflamação merece atenção e está presente em diversas doenças crônicas, mas quando usamos essa palavra de forma exagerada, ela deixa de esclarecer e começa a confundir.
A ciência não pede para que tenhamos medo da comida. Ela pede que olhemos para o contexto.