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“Alerta de misantropia” expõe vulnerabilidade de sistema brasileiro

“Alerta de misantropia” expõe vulnerabilidade de sistema brasileiro

O provável ataque hacker que disparou uma série de alertas de nível extremo com a palavra “misantropia” para milhões de celulares de brasileiros expôs a fragilidade do sistema de avisos de emergência do país e pode levar a uma quebra de confiança da população sobre novos alertas.

A opinião é de Wanderson Castilho, especialista em crimes digitais e CEO da Enetsec, empresa norte-americana que atua com segurança cibernética.

As mensagens foram enviadas pelo sistema Defesa Civil Alerta (DCA), iniciativa criada em parceria entre a Defesa Civil Nacional e a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), com execução das operadoras de telefonia móvel Algar, Claro, Tim e Vivo.

O disparo é feito por meio da tecnologia Cell Broadcast, utilizado em sistemas de alerta e comunicação de emergência em diversos países, como Japão, Estados Unidos e Países Baixos. Diferentemente de envio por SMS, o alerta por Cell Broadcast é exibido sobreposto ao conteúdo em uso no celular, e só pode ser fechado com a ação do usuário.

Em situações de risco extremo, como foi configurado o falso alerta de “misantropia”, o aparelho ainda emite um sinal sonoro, similar a uma sirene, mesmo que esteja no modo silencioso. Além disso, não é necessário cadastro prévio para recebimento nem informação sobre local de residência do usuário: a mensagem é enviada para todos os dispositivos que estejam dentro da região de alcance de uma estação base de rede móvel.

“A tecnologia em si é a mesma empregada pelo mundo”, explica Castilho. “O que vai mudar em cada um é a infraestrutura de operação que tem o país. Infelizmente sabemos que a infraestrutura hoje é muito debilitada nos serviços públicos do Brasil”, avalia.

Cerca de 600 pessoas e 180 instituições tinham acesso a cadastro de alertas

O cadastro dos alertas foi feito pela Interface de Divulgação de Alertas Públicos (Idap), cujo acessado é liberado a órgãos de defesa civil estaduais e municipais.

Após os alertas falsos desta madrugada, o sistema foi retirado do ar e deve permanecer suspenso até que haja garantia de segurança contra novos ataques.

De acordo com a Portaria 3.165/2024, do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR), para ter acesso à plataforma, a liberação de usuários e instituições para uso do Idap cabe ao Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres.

Entre os requisitos está a apresentação de certificado de conclusão de curso sobre a utilização do sistema e assinatura de termo de responsabilidade.

Uma nota publicada em fevereiro de 2023 no site do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) informava que naquele momento “180 instituições e aproximadamente 600 usuários (entre estados e municípios)” tinham cadastro e capacitação para acessar o Idap e gerar informações prévias a desastres.

Para Castilho, o número de servidores aptos a utilizar a plataforma deve ser restrito, e a liberação do acesso, criteriosa. “Precisa ser limitado porque é um serviço de emergência pública”, diz.

“Quando se ativa um serviço desses, nós estamos falando em milhares, senão milhões de pessoas afetadas. Um evento desses não fica restrito a 15, 20 segundos de efeito. Pode ter efeitos catastróficos. Pode gerar histeria em massa”, ressalta.

Caso “misantropia” pode fazer população duvidar de novos alertas

Castilho acrescenta que episódios de falsos alarmes como o desta madrugada, podem colocar em dúvida o sistema perante a população, um fenômeno conhecido como cry wolf. “Quando realmente for preciso que as pessoas tomem alguma atitude, elas podem não fazer, porque [os sistemas] já perderam toda a credibilidade.”

O próprio secretário nacional de Proteção e Defesa Civil, Wolnei Wolff, admite o risco. Na manhã deste sábado, em entrevista coletiva, ele disse que o caso “é muito ruim para o sistema, ainda mais pensando que a gente trata com a segurança das pessoas, com vidas”.

“É lógico que isso não é bom para a confiabilidade [do sistema]. Pelo contrário, é muito ruim”, reconheceu.

Para o especialista em cibersegurança, a responsabilidade pela vulnerabilidade da plataforma é da estrutura estatal que guarda o sistema. “O Estado, sem dúvida nenhuma, errou”, afirma. Ele considera urgente que os órgãos responsáveis modernizem a infraestrutura de acesso ao disparo de alertas.

“A primeira coisa que deve ser feita, além de tapar esses buracos, é identificar as pessoas que realizaram isso e dar a punição devida a elas”, diz.

O MIDR anunciou nesta manhã que investiga o acionamento indevido e não autorizado do sistema DCA. As investigações contam com apoio da Polícia Federal e buscam esclarecer o número de envolvidos, a identidade dos responsáveis e suas motivações.

Segundo o secretário nacional de Proteção e Defesa Civil, por se tratar de um disparo não oficial, ainda não é possível calcular quantos aparelhos móveis receberam as mensagens nem identificar todas as localidades atingidas.

Ainda de acordo com Wolff, já se encontra em desenvolvimento uma nova versão do sistema, que visa melhorar a segurança da plataforma. 

“Com a perícia, teremos em breve informações bastante seguras de como aconteceu esse ataque a nossa plataforma e, no menor tempo possível, é uma questão de prioridade do governo federal ativar essa nova versão que garanta mais segurança ao sistema e aos usuários do sistema Defesa Civil Alerta”, afirmou.

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