Se você é daquelas pessoas que não abrem mão de tomar um cafezinho todos os dias, prepare-se para boas notícias. Um estudo publicado ontem na revista Journal of the American Medical Association sugere que o consumo diário de duas a três xícaras está associado a redução do risco de demência, retardamento do declínio cognitivo e preservação da função cognitiva.
O que aconteceu
A pesquisa analisou dados de 131.821 voluntários que foram acompanhados de 1980 a 2023. Ela foi baseada em dois estudos conhecidos nos Estados Unidos: o Estudo de Saúde das Enfermeiras, realizado com mais de 86 mil mulheres com média de idade de 46 anos, e o Estudo de Acompanhamento de Profissionais de Saúde, com mais de 45 mil homens (54 anos de média).
A ideia era verificar se bebidas como café e chá poderiam estar conectadas à saúde cerebral com o envelhecimento. Para medir o consumo de café comum, café descafeinado e chá, os participantes preencheram questionários de dieta a cada dois a quatro anos. Após acompanhamento de quase 37 anos, 11.033 pessoas foram diagnosticadas com demência.
Ao comparar as pessoas pela quantidade de café com cafeína consumida, verificou-se um padrão:
- Aqueles com o maior consumo de café com cafeína tiveram 18% menos risco de demência em comparação com quem relatou pouco ou nenhum consumo de café com cafeína.
- Pessoas que bebiam café com cafeína também relataram menos preocupações com memória ou raciocínio, chamado de declínio cognitivo subjetivo (7,8% versus 9,5%).
- Em alguns testes cognitivos objetivos, os consumidores de café com cafeína tiveram um desempenho um pouco melhor no geral.
Os pesquisadores também determinaram a quantidade ideal de cada bebida. Em comparação com quem não bebia café ou chá, aqueles que consumiam duas a três xícaras de café com cafeína ou uma a duas xícaras de chá por dia tiveram o menor risco de demência. Isso equivale a cerca de 300 mg de cafeína diariamente.
Não estamos recomendando que pessoas que não bebem café comecem a beber. Estamos apenas constatando que, para pessoas que já bebem café, os resultados são realmente tranquilizadores.Yu Zhang, principal autor do estudo, em entrevista à NBC News
Ainda assim, Zhang diz que a demência é uma condição complexa que não pode ser totalmente prevenida por intervenções dietéticas. “Beber café sozinho não fornece o efeito mágico que pode prevenir as pessoas de desenvolver demência”, afirmou.
E o café descafeinado?
O café descafeinado não apresentou os mesmos benefícios neuroprotetores. Isso não prova que a cafeína seja o único fator, mas sugere que a cafeína pode ter um papel importante, possivelmente junto com outros compostos presentes no café e no chá (como polifenóis).
A equipe de pesquisadores também verificou se o risco genético alterava o padrão. A associação foi semelhante em diferentes níveis de predisposição genética, indicando que o benefício observado não se limita a pessoas com menor risco hereditário.
Pesquisa tem limitações
Os pesquisadores descreveram o efeito geral como pequeno. Portanto, mesmo que a associação seja real, ela provavelmente seria apenas um contribuinte modesto, ao lado de outros fatores como exercícios, controle da pressão arterial, sono e não fumar.
A nova pesquisa tem limitações. Ela não diferenciou entre chá comum ou descafeinado, nem o tipo de chá (preto, verde ou branco). Os métodos de preparo do café também não foram especificados. Fatores como o grau de torra, origem do grão e técnica de preparo podem influenciar as concentrações de cafeína e outros compostos, segundo os autores.
Os participantes também relataram o consumo de cafeína via refrigerantes e chocolate, que nem sempre são considerados saudáveis. Em termos de ingestão total de cafeína, os pesquisadores descobriram que quem consumia mais cafeína tinha menor risco de demência.