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Rocinha tem armamento até 7x maior que batalhão da PM do Rio

Na encosta entre os bairros da Gávea e de São Conrado, na Zona Sul do Rio de Janeiro, a favela da Rocinha abriga hoje uma população de 72 mil pessoas, conforme os dados do Censo 2022 do IBGE. Essa comunidade é considerada pelas autoridades como a maior fortaleza do Comando Vermelho no Rio.

A estimativa da cúpula da Segurança Pública estadual é de que haja cerca de 1,5 mil fuzis nas mãos de criminosos que dominam o território — um arsenal que, segundo os dados disponíveis, é até sete vezes superior ao disponível em um batalhão operacional da Polícia Militar.

O domínio da facção se consolidou depois de uma guerra que durou oito anos e resultou na expulsão da organização rival Amigos dos Amigos (ADA). “Foram oito anos de guerra até a comunidade se tornar o maior bunker do CV no Estado”, informa apuração do jornal O Globo publicada nesta segunda-feira, 14.

O impacto do domínio se estende além da violência direta: a Rocinha passou a ser usada como base por criminosos de outras localidades e operar como uma espécie de home office para estelionatários, assaltantes e outros integrantes do crime organizado.

As imagens registradas por drones da PM no mês anterior evidenciam a dimensão do aparato armado. As gravações, feitas com tecnologia de visão noturna, identificaram cerca de 400 homens armados em uma área de mata durante operação policial. De acordo com os investigadores, a maioria dos suspeitos estava de fuzil em punho.

O tamanho do armamento em poder das facções passou a ser, nas últimas décadas, um elemento estratégico para garantir o controle de territórios e a continuidade dos negócios ilícitos. Conforme descreve o delegado Pedro Cassundé, a atividade do tráfico passou de operações de varejo para o atacado.

Rocinha como centro logístico do crime armado

“Hoje, por causa do capital acumulado, eles passaram a atuar também como atacadistas”, afirma o policial. “Eles aproveitam o contato estabelecido com os fornecedores para adquirir, em larga escala, armas e drogas e revender esse material a qualquer criminoso disposto a pagar o valor cobrado.”

As investigações demonstram a sofisticação logística do tráfico. Em uma troca de mensagens interceptada, Eduardo Fernandes de Oliveira, conhecido como Eduardo 2D e apontado como integrante da cúpula do Complexo do Alemão, negocia a venda de armamentos.

“500 caixas de projétil calibre 7,62 custam R$ 75 mil; um fuzil AR-556, R$ 51 mil; e 48 caixas de determinada munição calibre 7,62, R$ 31,2 mil”, registra a conversa. A negociação total ultrapassou R$ 300 mil.

policia militar rio de janeiro
Polícia Militar do Rio de Janeiro | Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

A cadeia de abastecimento é transnacional. O tráfico envolve peças vindas de Miami por correio, negociações com intermediários no Paraguai, Peru, Bolívia e Colômbia, além do uso de copyfakes — cópias de fuzis norte-americanos montadas no Brasil, com peças informais ou canibalizadas, algumas feitas a partir de armas de airsoft.

Um fuzil desse tipo, segundo o relatório da Coordenadoria de Fiscalização de Armas e Explosivos da Polícia Civil, pode custar metade do valor de um fuzil importado ilegalmente, cujo preço varia entre R$ 50 mil e R$ 70 mil.

A promotora Letícia Emile, coordenadora do Gaeco no Ministério Público do Rio, resume a lógica que rege o mercado ilegal: “Eles vendem para quem estiver disposto a pagar: tráfico, milícia, contravenção”, lista. “Essas armas ilegais passam por vários bandidos e só deixam de ser usadas quando não funcionam mais.”

Via Revista Oeste

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