A ofensiva conjunta de Estados Unidos e Israel, iniciada em 28 de fevereiro, transformou o conflito no Irã em um fator concreto de risco para a economia brasileira.
Com retaliações imediatas e escalada da tensão regional, os mercados reagiram quase instantaneamente: o preço do petróleo disparou 22,9%, o dólar ganhou força e o tráfego no Estreito de Ormuz foi interrompido.
O conflito não afeta o Brasil de forma uniforme: enquanto o governo e as petroleiras ganham com o petróleo mais caro, o setor produtivo e o consumidor pagam a conta via combustíveis, fretes e juros mais altos.
O saldo não é claramente positivo nem negativo, mas desigual. Este levantamento mostra quem ganha e quem perde com o barril voltando à faixa de US$ 80 a US$ 100.
O choque no petróleo e o gargalo de Ormuz
Nos primeiros dias após o início da guerra no Irã, o impacto foi predominantemente financeiro e logístico, com alta do petróleo, valorização do dólar e interrupção do tráfego no Estreito de Ormuz mesmo sem confirmação de danos permanentes à infraestrutura energética.
Por ali passam cerca de 20% do comércio global de petróleo e até 25% do comércio de gás natural liquefeito (GNL), o que transforma qualquer tensão na região em pressão imediata sobre preços, seguros, fretes e insumos agrícolas.
“Espera-se um cenário de volatilidade e incerteza sobre produtos produzidos ou relacionados à região”, afirma Enilson Nogueira, coordenador de estudos econômicos da Céleres. Os fornecedores de fertilizantes já retiram ofertas para aguardar novos preços.
Se a interrupção se prolongar, “o impacto no mercado de petróleo poderá ser grave e potencialmente elevar os preços do Brent [principal referência internacional para o preço do petróleo] acima de US$ 100”, avalia Regis Cardoso, head (chefe de área) de Óleo e Gás da XP Investimentos.
Governo e petroleiras ganham; setor aéreo e consumo perdem no curto prazo
O aumento do Brent favorece diretamente as petroleiras e o governo federal via royalties e participações especiais — um choque de US$ 10 no petróleo pode injetar R$ 10,7 bilhões adicionais no resultado primário em 2026, segundo a XP. Na balança comercial, BTG Pactual e XP projetam incremento de US$ 8,5 bilhões no saldo do ano.
Do outro lado, o setor aéreo é atingido na largada: o querosene já aumentou 9,4%, e voos para o Oriente Médio foram cancelados.
No diesel, a defasagem chegou a 41% segundo a Associação Brasileira de Importadores de Combustíveis. Na gasolina, 17%. O resultado é a redução das margens de lucro de transportadores e motoristas de aplicativo, cujas tarifas não acompanham, na mesma velocidade, as oscilações do petróleo.
No mercado financeiro, o Ibovespa recuou com a saída de capital estrangeiro. “Em momentos de tensão internacional, investidores tendem a reduzir exposição a ativos de mercados emergentes e migrar para posições defensivas”, explica Jonathan Araújo, da InvestSmart XP.
Inflação à vista e Banco Central sob dilema
O real depreciou de R$ 5,13 para R$ 5,28 em menos de uma semana após o início da guerra no Irã. Os primeiros efeitos nos combustíveis podem chegar em até duas semanas nas refinarias e distribuidoras.
O Banco Central já está sob pressão: antes da guerra no Irã, o mercado projetava redução de meio ponto percentual na Selic. Agora, crescem as chances de 0,25 p.p. ou nenhum corte.
O Brasil chega a esse momento com desemprego em 5,4% e renda média em nível recorde — quadro que sustenta consumo, mas reduz o espaço do BC para absorver choques externos. “Um mercado de trabalho aquecido aumenta a sensibilidade do Brasil a choques inflacionários vindos do exterior”, afirma Peterson Rizzo, gerente de relações com investidores da Multiplike.
Modelos do BTG indicam que manter o Brent a US$ 80 adicionaria 0,6 ponto percentual à inflação de 2026, elevando a projeção para 4,7% — acima do teto da meta. O impacto atua como freio na atividade: eleva a inflação via combustíveis e fretes sem que a demanda tenha aquecido.
Agronegócio no centro do choque gerado pela guerra no Irã
Um dos setores mais expostos ao conflito é o agronegócio: o Brasil importa entre 80% e 85% dos fertilizantes que consome, e a dependência do Oriente Médio é maior do que parece. Em 2025, Irã e países da região concentraram cerca de 35% das importações brasileiras de ureia, 17% dos fosfatados e 10% do cloreto de potássio.
“O conflito terá um impacto imediato e severo no mercado de fertilizantes, com ênfase nos nitrogenados”, diz Maria Luisa Franzotti, analista de economia e geopolítica da Céleres. No caso dos fosfatados, a dependência logística é crítica: grande parte da oferta vem da Arábia Saudita e países vizinhos, que dependem do Canal de Suez e do Estreito de Ormuz para escoamento.
André Aidar, sócio e head de Direito do Agronegócio do Lara Martins Advogados, reforça que o efeito vem também pelo encarecimento da energia: “A alta do petróleo afeta diretamente o custo do diesel e pressiona os fretes marítimos, impactando a competitividade do produtor”.
O efeito negativo no agronegócio não se limita ao custo dos insumos, mas também se propaga para o frete rodoviário e, em seguida, para o preço dos alimentos no varejo. Ou seja, o ciclo começa no campo e termina no carrinho de supermercado.
Pelo lado da demanda, o risco é igualmente relevante. O Irã consolidou-se como um dos principais destinos do milho brasileiro nos últimos cinco anos, liderando as importações em três deles. Em 2025, importou mais de 9 milhões de toneladas do cereal brasileiro.
“A incerteza sobre demanda e condições logísticas de comércio com o Irã deve impactar a formação de preços ainda em 2026. Uma eventual interrupção nos embarques pode aumentar estoques no Brasil e pressionar os preços do milho para baixo”, alerta Nogueira.
Os impactos indiretos se estendem ainda à proteína animal: o Oriente Médio representou 26% das exportações brasileiras de carne de frango e 6% da carne bovina, o que reduz a demanda por ração e pressiona ainda mais o preço do milho.
Se o conflito durar: estagflação e incertezas estruturais
Caso o conflito se prolongue, o Brasil enfrentará um ambiente de maior risco geopolítico, com pressão sobre petróleo, fertilizantes, câmbio e demanda externa justamente no período de planejamento da safra 2026/27.
No longo prazo, porém, o país pode se consolidar como fornecedor seguro em um mundo fragmentado: o Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP) destaca que o Brasil é o 9º maior exportador mundial e aposta em novas fronteiras, como a Margem Equatorial, para evitar retornar à condição de importador.
O risco mais agudo é a estagflação — baixo crescimento com inflação persistente. A combinação de choque de custos, câmbio depreciado e possíveis restrições comerciais americanas a parceiros do Irã forma um ambiente adverso.
“Um conflito limitado a semanas tem impacto restrito. Se se prolongar, o impacto macroeconômico será significativo e irá além da energia”, conclui Ruben Nizard, head de pesquisa setorial da seguradora de crédito Coface.