Embora o poder de destruição entre os adversários cresça exponencialmente, a comunidade internacional criou regras para minimizar o potencial de cataclismo. O arsenal nuclear é um exemplo resoluto dessa dinâmica. As bombas atômicas ficaram guardadas.
Armas assim passaram a existir a partir de 1945. Desde então, não mais que duas ogivas foram usadas contra um adversário — e isso, apesar da disseminação do arsenal radioativo por diversos países.
Em meados da década de 1940, a tecnologia era apenas dos Estados Unidos. Nos anos seguintes, o poder de destruição em massa se tornou parte da força soviética, inimiga declarada dos norte-americanos — e não parou por aí.
Depois de cruzar a fronteira russa, o conhecimento para produzir ogivas nucleares virou míssil no Reino Unido, na França, na China, na Índia, no Paquistão e até em nações como a belicosa Coreia do Norte. Ainda assim, as armas ficaram à espreita, nas vitrines, como um grande porrete para uso apenas em emergência extrema. Do outro lado do vidro, a esmagadora maioria da humanidade criava vínculos e promovia trocas que elevavam a qualidade de vida em todo o planeta.
Armas da paz
Quando as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki foram arrasadas pelas bombas atômicas dos EUA, o Japão se rendeu. Acabava, assim, a Segunda Guerra Mundial. O país estava isolado. Alemanha e Itália já haviam assinado o armistício muitos meses antes. Porém, o imperador japonês aceitou a derrota apenas depois de a nuvem radioativa exterminar milhares de súditos em questão de segundos, no mês de agosto de 1945.
De fato, o poder de destruição demonstrado pelos norte-americanos chocou o mundo e despertou cobiça naqueles com a ganância de controlar a humanidade. Todavia, o nível de caos das bombas atômicas promete uma guerra em que todos perdem. É um lacre quase impossível de romper, mesmo para os ditadores mais narcisistas.
Por outro lado, enquanto a fabricação das armas seguiu frenética, a humanidade se munia da mais estreita ponte entre os povos: o comércio. As trocas fizeram a tecnologia da morte servir para preservar a vida.
Das bombas atômicas aos hospitais
O mercado entre as nações impulsionou o desenvolvimento científico. A pesquisa de ponta quebrou o monopólio militar sobre o material nuclear para irradiar essa tecnologia em aplicações mais nobres. Entre as mais conhecidas, a produção de energia elétrica — a força da revolução do conforto nos lares mundo afora.
A radiação também encontrou espaço na saúde, para combater doenças como o câncer e gerar imagens de alta precisão dentro do corpo humano, sem a necessidade de um corte. A partir daí, surgiram exames mais eficientes, e milhões de vidas foram salvas. Além disso, também há aplicação agrícola, para fertilizar os solos e gerar comida para quem tem fome.

Com comida, energia e recursos para tratar doenças, a vida se tornou mais fácil. Educação, alimentação e saúde passaram a ser encaradas como direitos universais. A fome, a desnutrição, o analfabetismo e a mortalidade infantil viraram inimigos a serem combatidos, e a expectativa de vida deu um salto em todo o planeta.
Em 1950, passar dos 45 anos de idade era privilégio para pouquíssimos homens. Hoje, chegar aos 70 é regra, de acordo com a média global. É verdade: existem nações onde a morte chega mais rápido. Esse é o caso do Chade. No centro da África, essa nação tem o pior índice do planeta.
Entretanto, por lá, a média atual supera a mundial em meados do século XX. Agora, a vida de um homem no Chade vai até os 53 anos — é um ganho de 20 anos sobre os números do país em 1950.
A indiferença que não mata
Quando o ditador nazista Adolf Hitler levou a Alemanha a um combate para submeter tudo o que não fosse ariano, lançou mão de um discurso de ódio cuja base era a necessidade de conquistar outros povos e territórios para prosperar. Depois da derrota alemã, o lucro virou um argumento para manter a paz — inclusive no território onde surgiu o nazismo.
Alemanha, Japão e Itália abandonaram as armas e, com a ajuda de quem outrora era inimigo, se reconstruíram. Os italianos viraram sinônimo de luxo, elegância, lazer e máquinas eficientes. Empresas como a montadora FIAT se tornaram internacionais. Ferrari e Lamborghini viraram símbolos de sucesso. Com os alemães e japoneses, não foi diferente.

A Mercedes, marca do carro preferido de Hitler, passou a vender conforto para os judeus endinheirados. O Fusca, criação nazista para submeter os povos supostamente inferiores, virou a alegria das famílias de classe média da América Latina.
Os japoneses, por sua vez, transformaram a disciplina em lição de gestão e eficiência para os norte-americanos. Toyota e Honda se tornaram tão — ou mais — relevantes no mercado internacional de automóveis quanto GM e Ford. A onda da busca pelo lucro transformou de tal maneira que reunificou países e virou fetiche até para os comunistas.
Da Guerra Fria à China
Aliados contra o resto do mundo durante toda a Segunda Guerra, Alemanha, Itália e Japão encontraram meios de sobreviver longe das armas. Novas disputas surgiram ao redor do globo. O exemplo mais claro se deu entre dois grandes aliados durante o conflito: Estados Unidos e União Soviética, que encabeçaram a Guerra Fria. Em síntese, as duas potências nunca se enfrentavam diretamente, mas disputavam força nos territórios de seus aliados.
Ao longo dos anos, o bloco soviético perdeu força. O poder central em Moscou não conseguiu controlar o apetite do povo pelas benesses ocidentais. O império comunista começou a ruir a partir de sua fronteira oeste, na Alemanha Oriental, e seguiu se desmobilizando até a China.
Na década de 1980, o Partido Comunista da China topou o livre mercado para manter a ditadura no comando da política. Em vez de um conflito armado com destruição mútua, entrou em cena uma guerra comercial que barateou equipamentos médicos, computadores e fez dos smartphones — os canivetes suíços da tecnologia — itens populares até em países pobres.
As trocas comerciais não impediram a China de rivalizar com os norte-americanos pelo controle do mundo. Entretanto, o lucro que nutre o sistema, por enquanto, contém o embate armado entre as grandes potências. Washington e Pequim trocam farpas sobre questões complexas, como a soberania de Taiwan — enquanto isso, a ilha dos chineses que fugiram do comunismo se protege das ameaças vindas do continente com o comércio.
Um dos grandes trunfos taiwaneses é fornecer chips da mais alta tecnologia tanto para a China quanto para os EUA, a Rússia, a União Europeia e o resto do mundo. São equipamentos indispensáveis para as novas revoluções tecnológicas que prometem deixar a vida mais fácil. Romper com os fabricantes pode ser como disparar várias bombas atômicas sobre os negócios.