Teresina - Piauí quinta-feira, 12 de março 25°C
Destaque / Internacional

O que é o Escudo das Américas lançado por Trump

O que é o Escudo das Américas lançado por Trump

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, lançou nesse fim de semana o chamado “Escudo das Américas”, iniciativa que prevê a formação de uma coalizão militar regional para enfrentar facções criminosas que atuam no continente americano. A proposta também é vista por analistas como uma estratégia dos EUA para reafirmar sua hegemonia regional e conter a crescente influência da China e da Rússia na América Latina.

Em encontro com líderes latino-americanos na Flórida, Trump assinou a “Declaração de Doral”, documento que formaliza a coalizão, e afirmou que a “única maneira de derrotar” os cartéis do narcotráfico e redes terroristas na região é “utilizando o poder dos exércitos”.

A iniciativa reúne até este momento 17 países da América Latina, entre eles Argentina, Equador, El Salvador e Paraguai. O Brasil ficou de fora, assim como México e Colômbia. Nesta quarta-feira (11), Trump disse que “achava” que esses países haviam sido convidados, mas que “talvez” não tivessem aceitado se juntar à coalizão.

As ausências indicam, além da falta de alinhamento com as políticas de segurança de Trump para a região, que esses países querem preservar a autonomia de seus governos sobre o combate ao crime organizado interno.

No caso brasileiro, há um atrito entre as gestões de Trump e Lula sobre a designação das facções Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como grupos terroristas. Os EUA avaliam implementar essa classificação e a Casa Branca já afirmou que as duas organizações criminosas são “ameaças relevantes para a segurança regional”.

O governo do petista, porém, é contra e no ano passado atuou para evitar a aprovação de um projeto de lei no Congresso brasileiro que designava PCC e CV como terroristas. Diplomatas brasileiros avaliam que essa classificação poderia abrir espaço para medidas mais duras por parte dos EUA, inclusive ataques militares, no combate ao narcotráfico na América Latina.

O professor de Direito Internacional e diretor do Ibmec Brasília, Ricardo Caichiolo, alerta que a intensificação de operações coordenadas entre membros do “Escudo das Américas” pode gerar efeitos indiretos para Brasil, México e Colômbia, como o deslocamento de rotas criminosas para territórios que não participam da iniciativa.

Como vai funcionar o “Escudo das Américas”

Para além do combate ao narcotráfico, a coalizão de Trump também traça objetivos para combater a imigração ilegal e o tráfico de pessoas, ampliando a cooperação militar e de segurança nas fronteiras e nas rotas marítimas da região.

O “Escudo das Américas” de Trump prevê coordenação militar, compartilhamento de inteligência em alto nível, treinamento conjunto e apoio operacional entre forças armadas dos países participantes.

Durante a cúpula na Flórida no final de semana, Trump afirmou que o compromisso central da coalizão é utilizar “força militar letal para destruir os cartéis e suas redes terroristas”. O presidente comparou o “Escudo” à coalizão internacional formada no passado pelos EUA e aliados para combater o grupo terrorista Estado Islâmico (EI) no Oriente Médio.

Os Estados Unidos devem ampliar treinamentos e troca de informações com os países participantes da coalizão, bem como aumentar sua presença logística no Caribe e no Pacífico oriental, áreas consideradas estratégicas nas rotas do tráfico internacional de drogas.

Para Caichiolo, a criação da coalizão representa uma mudança estrutural na cooperação entre Estados Unidos e países latino-americanos. Ela marca uma “transição de uma cooperação tática para um modelo de segurança regional integrada”.

“Os Estados Unidos entendem que a natureza fluida e transnacional do crime organizado exige que as capacidades nacionais sejam fundidas em uma arquitetura de resposta coletiva, superando a fragmentação atualmente existente”, afirmou.

Caichiolo avalia que a iniciativa abre espaço para um “arcabouço de interoperabilidade”, cujo objetivo não seria apenas capacitação local, mas “a padronização de protocolos de inteligência e logística” entre os países participantes.

Parcerias militares na América Latina

Argentina, Equador e Paraguai já estão adotando medidas alinhadas à estratégia defendida por Washington no combate ao crime organizado. Eles classificaram, nos últimos meses, organizações criminosas que atuam em seus territórios como grupos terroristas e ampliaram a cooperação em segurança com os Estados Unidos.

No caso do Equador, o governo classificou como terroristas todos os cartéis que controlam o narcotráfico no país e espalham violência – entre eles os cartéis de Los Lobos e Los Choneros.

O Paraguai, por sua vez, classificou no ano passado o PCC e o Comando Vermelho, ambos com origem no Brasil, como grupos terroristas, por representarem um risco para a segurança nacional.

A Argentina, liderada pelo presidente Javier Milei, também classificou no ano passado como terroristas o PCC e o CV, bem como criou um plano de segurança para controlar o tráfico de drogas na fronteira. O governo Milei afirmou que a adesão da Argentina ao “Escudo das Américas” de Trump representa um novo alinhamento estratégico com Washington.

“Esta histórica coalizão de nações trabalhará em conjunto para promover estratégias que freiem a interferência estrangeira em nosso hemisfério, combatam o crime organizado e o narcotráfico e deem resposta à problemática da imigração ilegal”, disse em nota a Casa Rosada.

Segundo Caichiolo, a coalizão deve institucionalizar mecanismos de atuação imediata entre os membros em cenários considerados “críticos” na América Latina.

EUA já atuam no Equador e podem começar a circular no Paraguai

Em 3 de março, os Estados Unidos já participaram de uma operação conjunta no Equador ao lado das forças armadas equatorianas contra integrantes do grupo “Comandos de la Frontera”, dissidência das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) envolvida no narcotráfico na região de fronteira.

Durante a operação, um acampamento atribuído à facção na região amazônica foi atingido em um bombardeio de precisão, com apoio de inteligência, aeronaves e coordenação direta entre militares dos dois países.

A ação evidenciou o nível de integração operacional entre os dois países, que deve se intensificar após o lançamento do “Escudo”.

No Paraguai, o Congresso do país aprovou nesta semana o acordo de cooperação militar conhecido como SOFA (Status of Forces Agreement), que regula a presença de militares dos Estados Unidos em território paraguaio.

O texto concede prerrogativas semelhantes às de missões diplomáticas para militares e funcionários civis do Departamento de Guerra dos EUA que estejam em missão no país, define regras de jurisdição penal – estabelecendo que, em casos ligados ao exercício de suas funções, esses profissionais ficam sob responsabilidade da Justiça americana – e autoriza a circulação de tropas, equipamentos e aeronaves militares americanas mediante notificação às autoridades locais.

O acordo, que deve ser sancionado pelo presidente Santiago Peña, também viabiliza a realização de treinamentos, exercícios conjuntos e outras ações previamente acordadas entre os dois governos.

“Escudo” contra a China

Além do combate ao narcotráfico e à imigração ilegal, o “Escudo” de Trump faz parte de uma estratégia mais ampla de reposicionamento dos EUA na América – alinhada à Estratégia de Segurança Nacional divulgada no ano passado, que defende um papel mais ativo na região “como condição para sua segurança e prosperidade” e a contenção da influência de potências adversárias, especialmente Rússia e China.

Nos últimos anos, a China ampliou investimentos em infraestrutura portuária, telecomunicações e energia em diversos países da América Latina, enquanto a Rússia aprofundou a cooperação militar com regimes de Venezuela, Cuba e Nicarágua.

Os EUA já conseguiram, ao realizar a operação para derrubar o ditador Nicolás Maduro em janeiro, diminuir parte dessa influência na Venezuela, que agora está sob mira da Casa Branca e seguindo diretrizes de Washington.

Caichiolo avalia que o Escudo das Américas “busca ser um pilar da reafirmação da hegemonia regional dos EUA em um contexto de multipolaridade”. Segundo o analista, Washington procura recuperar neste momento o status de “parceiro de segurança preferencial” dos países da América Latina, utilizando a luta contra o crime organizado como instrumento de reorganização estratégica no hemisfério.

“Geopoliticamente, a coalizão poderá consolidar padrões tecnológicos e militares norte-americanos na região, criando barreiras de entrada para a influência da China e da Rússia”, afirmou. Segundo o professor, isso pode restringir a penetração dessas potências em infraestrutura sensível na zona de influência americana, como redes 5G e sistemas de monitoramento associados a essas potências.

Em análise publicada dias antes da cúpula pelo think tank Center for Strategic and International Studies (CSIS), o diretor do Programa das Américas da instituição, Ryan Berg, observou que o encontro pode servir para “ampliar a estratégia de contenção à China no Hemisfério Ocidental”, inclusive em infraestrutura digital, portos estratégicos e cadeias produtivas sensíveis.

Segundo Berg, a China mantém forte presença em redes de telecomunicações latino-americanas, com empresas como a Huawei atuando em diversos países da região. A análise aponta que Pequim construiu “acesso irrestrito ao entorno estratégico dos Estados Unidos” nas últimas décadas, consolidando presença em portos, energia e infraestrutura espacial.

Para o analista, o “Escudo das Américas” pode funcionar como núcleo de uma rede mais ampla de acordos econômicos, energéticos e de segurança, capazes de reduzir a influência de potências estrangeiras na América Latina e estabelecer padrões regulatórios e tecnológicos na região alinhados a Washington. Segundo ele, os países convidados à cúpula tendem a formar a base desse movimento de reposicionamento estratégico no continente.

Operações dos EUA no Caribe e no Pacífico antecederam o “Escudo”

Desde setembro do ano passado, os Estados Unidos realizam operações contra o narcotráfico no Caribe e no Pacífico oriental. As ações fazem parte da operação denominada pela Casa Branca como “Lança do Sul”, conduzida principalmente pela Marinha e pela Guarda Costeira dos EUA.

A operação serviu para sufocar as rotas marítimas do tráfico, bem como impedir atuação do crime na Venezuela e tentativas de furar o bloqueio contra Cuba. A iniciativa antecedeu a captura do ditador Nicolás Maduro, em janeiro deste ano.

Segundo dados divulgados por autoridades dos EUA, até o momento 44 embarcações ligadas ao tráfico internacional de drogas foram alvo de ataques ou interceptações no âmbito da operação. A iniciativa já resultou em pelo menos 150 criminosos mortos, de acordo com balanço oficial do governo americano.

Dias antes do lançamento oficial do “Escudo das Américas”, o secretário de Guerra dos EUA, Pete Hegseth, afirmou que Washington está preparado para lançar uma ofensiva unilateral contra organizações criminosas na América Latina, embora a preferência seja atuar “junto com vizinhos e aliados”.

De acordo com Caichiolo, a possibilidade de ações unilaterais dos EUA contra o crime na América Latina, mesmo após o lançamento da coalizão, não pode ser descartada.

“A doutrina de segurança dos EUA admite ações quando entende haver ameaça iminente. É possível, portanto, que haja operações militares americanas sem solicitação formal do Estado envolvido, a depender da percepção do governo norte-americano”, afirmou.

Fonte

Deixe seu comentário

Seu e-mail não será publicado. Campos obrigatórios estão marcados.