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Japão estuda volta da energia nuclear diante da demanda elétrica

O Japão tem dado os primeiros passos para retomar o uso da energia nuclear e preparar o terreno para a construção de usinas de nova geração depois da reativação de seus reatores. A mudança ocorre em meio ao aumento dos preços do gás e à crescente demanda energética provocada por centros de dados voltados à inteligência artificial.

A decisão marca uma inflexão importante em relação à política energética adotada depois do acidente nuclear de Fukushima, ocorrido em 2011. Desde então, o país havia interrompido a operação de suas usinas e reduzido a participação da energia nuclear de 30% para praticamente zero na matriz elétrica nacional.

Atualmente, 14 dos 54 reatores desativados já foram reativados, e o processo deverá se estender até pelo menos 2030. Em fevereiro deste ano, o Japão revisou seu plano energético para 2040 e abandonou a diretriz de “minimizar” o uso da energia nuclear. O novo texto estabelece como meta “maximizar o uso de fontes de energia descarbonizadas, como as renováveis e a nuclear”.

Com isso, o país busca aumentar a contribuição da energia atômica para 20% da geração de eletricidade e reduzir a dependência dos combustíveis fósseis, que atualmente respondem por cerca de 70% da produção. A informação foi publicada pelo jornal britânico Financial Times no último domingo, 6.

A elevação dos preços do gás natural, em grande parte atribuída à guerra na Ucrânia, foi um dos principais motivadores da revisão da política energética. Como o segundo maior importador global do combustível, o Japão foi diretamente afetado pela escalada de custos.

A esse cenário somou-se a reavaliação do consumo elétrico dos centros de dados de inteligência artificial, que pode dobrar ou até triplicar até 2030. O crescimento da demanda frustrou expectativas de queda no consumo elétrico em razão do envelhecimento da população.

Especialistas acreditam que, até 2030, o país deverá estar apto a começar projetos de reatores de nova geração. Entre as tecnologias consideradas mais promissoras estão os pequenos reatores modulares (SMRs, na sigla em inglês).

Segundo Kazuto Suzuki, professor de políticas de ciência e tecnologia na Universidade de Tóquio, “há um consenso geral de que, no fim das contas, precisamos depender da energia nuclear” e que “apostar nos SMRs pode ser algo necessário”.

Perspectivas tecnológicas para o Japão

O plano japonês contempla cinco tipos de reatores nucleares de nova geração, considerados mais seguros do que os utilizados na usina de Fukushima. O projeto mais próximo da realidade é o dos reatores refrigerados a gás em alta temperatura, que poderão entrar em operação na década de 2030.

Em seguida viriam os reatores avançados de água leve, os SMRs, os reatores de nêutrons rápidos e, por fim, a fusão nuclear. No entanto, a resistência local ainda é um desafio. Em Kashiwazaki-Kariwa, onde está localizada a maior usina nuclear do mundo, a retomada das operações está suspensa por decisão do governador local.

A Federação Japonesa das Associações de Advogados se manifestou contra o novo plano do governo. Em nota, a entidade declarou que o governo “está tentando mudar para uma política de utilização ativa da energia nuclear sem prestar atenção plena aos danos em curso causados pelos acidentes nucleares de Fukushima ou aos perigos da geração de energia nuclear”.

A adoção dos SMRs também esbarra na burocracia regulatória e no ceticismo em relação às novas tecnologias. Hiroki Sato, diretor executivo da Chubu Electric, que investe na empresa norte-americana NuScale, afirma que a introdução da tecnologia no Japão pode ser “muito desafiadora”.

Segundo ele, “todas as pessoas desconfiam da nova tecnologia, especialmente no Japão. É importante mostrar a elas que isso é uma realidade”, o que justificaria a construção desses projetos em países como os Estados Unidos, antes de sua adoção no território japonês.

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A ministra das Relações Exteriores do Japão, Yoko Kamikawa | Foto: Divlgação/Kyodo

Sato avalia que os SMRs provavelmente não chegarão ao Japão antes de 2040. Enquanto isso, o governo e empresas do setor enxergam como essencial financiar projetos internacionais para manter a capacidade da cadeia de suprimentos e competir com Rússia e China, cujos modelos foram usados em mais de 90% dos reatores com obras desde 2017.

Ramsey Hamady, diretor financeiro da NuScale, declarou que o Japão é “um parceiro comercial muito importante do ponto de vista da produção da cadeia de suprimentos”. Ele acrescentou que “o Japão reconhece o potencial dos SMRs”, mas ainda carece de um ambiente regulatório tão favorável quanto o da Coreia do Sul, que possui um programa dedicado ao desenvolvimento da tecnologia.

Uma das empresas japonesas que apoiam a NuScale é a IHI, fornecedora de componentes estratégicos. Segundo Yasuyuki Hasegawa, diretor da divisão nuclear da companhia, “acho que podemos entregar essa tecnologia ao Japão também, mas a maior questão é quando isso acontecerá”.

Outras companhias japonesas também estão envolvidas na tentativa de consolidar o uso internacional dos SMRs. A GE Vernova Hitachi, uma joint venture entre Estados Unidos e Japão, obteve aprovação para construir um reator modular em Ontário, no Canadá, com previsão de operar em 2030.

O objetivo dos investidores japoneses é que o sucesso internacional da tecnologia abra caminho para o seu uso doméstico. Para Andreas Schierenbeck, executivo-chefe da Hitachi Energy, os SMRs devem prevalecer no longo prazo, pois “você pode construí-los mais rápido e mais barato” e acidentes como o de Fukushima são menos prováveis.

Via Revista Oeste

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