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fim da escala 6×1 pode superar perdas da recessão

fim da escala 6x1 pode superar perdas da recessão

Prioridade do governo Lula neste ano eleitoral, o eventual fim da escala 6×1 pode custar até 16% do PIB, mais que o dobro dos 7,4% registrados na recessão entre 2014 e 2016. Além disso, a mudança pode eliminar centenas de milhares de vagas formais e elevar o custo do trabalho em até 22%, segundo estudos de entidades empresariais e centros de pesquisa econômica.

Desde que a proposta ganhou força nas redes sociais e chegou ao Congresso Nacional, em novembro de 2024, economistas passaram a simular seus efeitos sobre emprego, produtividade e competitividade.

As projeções variam em intensidade, mas convergem em um diagnóstico: a redução da jornada sem corte proporcional de salários elevaria o custo por hora trabalhada, pressionando margens, preços e contratações.

As estimativas vão de 640 mil a 1,2 milhão de postos formais a menos, retração relevante do PIB em cenários adversos e impacto bilionário sobre faturamento, massa salarial e arrecadação. Apenas um estudo, ligado ao governo federal, sustenta que o mercado teria capacidade de absorção semelhante à observada nos reajustes do salário mínimo.

Veja, a seguir, as principais projeções sobre o fim da escala 6×1: 

1. Danos comparáveis aos da recessão de 2014-2016 (FGV-Ibre)

Em novembro de 2024, o economista Daniel Duque, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV-Ibre), estimou perdas econômicas imediatas de 2,6% com a redução para 40 horas semanais e de 7,4% caso a jornada fosse fixada em 36 horas. As simulações consideram ganhos potenciais de produtividade e possíveis demissões decorrentes do aumento do custo do trabalho.

Segundo o pesquisador, uma retração de 7,4% seria equivalente à observada entre 2014 e 2016, durante o segundo mandato da ex-presidente Dilma Rousseff (PT). “Esse nível de redução econômica poderia se comparar a períodos de recessão profunda, impactando negativamente o emprego, a renda e a estabilidade financeira do país”, afirmou.

Em abril de 2025, o economista Fernando de Holanda Barbosa Filho publicou novas projeções indicando que a redução de 44 para 36 horas poderia provocar perdas entre 3,8% e 6,9% do PIB. Em cenário mais adverso, com queda na demanda por trabalho sem compensação via produtividade, o recuo poderia chegar a 11,3%.

Em estudo posterior, contando com a parceria do professor Paulo Peruchetti, Holanda apontou que setores intensivos em mão de obra — como transportes, atividades extrativas e comércio — concentrariam as maiores perdas.

O agronegócio aparece como exceção, sendo o único capaz de absorver a alta nos custos do trabalho com o fim da escala 6×1, em razão dos ganhos de produtividade acumulados nos últimos anos.

Os pesquisadores alertaram, ainda, para possíveis perdas salariais nos setores do varejo, onde as comissões por vendas estão relacionadas ao tempo de serviço.

2. Perda de até 640 mil vagas formais (CLP)

O Centro de Liderança Pública (CLP), think tank liberal, divulgou em fevereiro de 2026 outro estudo liderado por Daniel Duque. O relatório reconheceu que a redução da escala 6×1 pode ser desejável do ponto de vista do bem-estar, mas alertou para o custo de transição em um ambiente de baixa produtividade.

Segundo o CLP, caso a jornada seja reduzida para 40 horas sem diminuição proporcional do salário mensal, o custo do trabalho por hora sobe automaticamente. “Para uma parte das firmas, isso pode ser absorvido por reorganização interna, redução de desperdícios e mudanças tecnológicas, mas, para outras, pode virar compressão de margens, repasse a preços ou redução de escala”, afirma o estudo.

As estimativas indicaram queda de 0,7% na produtividade por trabalhador e redução de 1,1% nos empregos formais — o equivalente a cerca de 640 mil vagas. Aplicado ao PIB de 2025, o impacto seria de R$ 88 bilhões em atividades que deixariam de ser geradas. O relatório também destacou o risco de perda de competitividade internacional.

3. Perdas podem chegar a 16% do PIB (Fiemg)

Levantamento publicado em março de 2025 pela Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) apontou que o Brasil já apresenta produtividade inferior à de economias desenvolvidas e emergentes relevantes. Segundo dados citados pela entidade, a produtividade média da força de trabalho brasileira equivale a 23% da americana.

A Fiemg estimou que o fim da escala 6×1 poderia provocar perdas de até R$ 2,9 trilhões em faturamento (o equivalente a 16% do PIB de 2024), além de 18 milhões de empregos, R$ 480 bilhões na massa salarial e R$ 115 bilhões em impostos.

Entre as consequências apontadas estão aumento de preços, avanço da automação, risco de falência para micro, pequenas e médias empresas, crescimento da informalidade e perda de competitividade no mercado global.

4. Custo do trabalho pode subir 22% (FecomercioSP)

A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) afirmou que o fim da jornada 6×1 elevaria o custo do trabalho em 22% caso não houvesse ajuste proporcional nos salários.

Para a entidade, uma alta dessa magnitude seria incompatível com a realidade das empresas, cujos reajustes anuais costumam variar entre 1% e 3%.

De acordo com a federação, cerca de 63% dos contratos formais seriam afetados. No varejo, 89% dos trabalhadores cumprem jornada entre 41 e 44 horas semanais; na agricultura e na construção civil, os percentuais chegam a 92% e 91%, respectivamente.

A entidade também projetou pressão inflacionária diante da tendência de repasse de custos aos preços, e possível aumento do desemprego.

5. Mercado teria capacidade de absorção (Ipea)

Em contraponto, estudo também publicado em fevereiro deste ano pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), vinculado ao Ministério do Planejamento, argumentou que o mercado poderia absorver os impactos do fim da escala 6×1 sem reajuste proporcional dos salários.

Para o instituto, os efeitos seriam semelhantes aos provocados anualmente pelo aumento do salário mínimo. A redução para 40 horas teria impacto operacional de cerca de 1% em setores como comércio e indústria. Os maiores efeitos ocorreriam em vigilância, segurança e investigação, com estimativa de 6,6%.

“O possível impacto sobre o PIB deve ser sopesado com o aumento da qualidade de vida do trabalhador, o tempo disponibilizado para a realização de tarefas de cuidados e as consequências para a melhora da saúde da população”, conclui o Ipea.

6. Perdas a comércio e serviços estimadas em R$ 357 bilhões (CNC)

Estudo liderado pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) estima que 90% dos trabalhadores do setor operam na escala 6×1. Caso a jornada seja reduzida para 40 horas semanais, seria necessário criar 980 mil postos de trabalho para compensar a redução.

Segundo o levantamento, 93% dos trabalhadores no varejo e 92% no atacado operam na escala 6×1. Assim como apontam outros estudos, a CNC avalia que a redução abrupta da jornada geraria a necessidade de adaptação. A medida também ocasionaria demissões e equiparações salariais.

As perdas estimadas pela CNC são R$ 122,4 bilhões para o comércio e R$ 235 bilhões para o setor de serviços. A entidade prevê aumento de 21% no custo do trabalho caso a medida venha sem ajuste salarial à nova jornada. O estudo foi apresentado para o relator da proposta na Câmara, deputado Paulo Azi (União-BA).

7. Nova jornada teria impacto diferenciado em cada região (CNI)

Divulgada na última sexta-feira (27), uma pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) avalia os diferentes impactos do fim da jornada 6×1 no Brasil. A região Sul e o estado de São Paulo seriam os mais afetados.

De acordo com o levantamento, 67,2% dos trabalhadores do Sul do país cumprem com a jornada 6×1, devido à alta industrialização da região. As perdas podem chegar a R$ 54 bilhões. Já o impacto para o estado de São Paulo seria maior, estimado em até R$ 95 bilhões.

Em toda a economia, a redução da jornada para 40 horas semanais tem o potencial de gerar perdas de R$ 267 bilhões por ano. O impacto se deve ao aumento dos custos da mão de obra – um acréscimo de até 7% na folha de pagamento. Segundo a CNI, independentemente da estratégia adotada pelas empresas, a compensação integral das horas reduzidas seria difícil de implementar.

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