quinta-feira, fevereiro 27, 2025
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EUA e Rússia sinalizam para nova ordem mundial

A aproximação entre Estados Unidos (EUA) e Rússia tem possibilidade de ser um marco histórico e alterar o equilíbrio geopolítico global. A aliança, que ainda precisa ser efetivada, já acena para uma diminuição rara nas tensões entre os dois países.

“A simples ideia de uma aliança entre EUA e Rússia dependeria de muitos fatores”, afirma a Oeste Daphne Klajman, coordenadora acadêmica do grupo Hilel, no Rio de Janeiro. “Um governo norte-americano repensando suas alianças para conter a China e priorizar assuntos internos, enquanto a Rússia buscaria o fim das sanções, o reconhecimento de sua força e o enfraquecimento da Organização do Tratado do Atlântico Norte [Otan].”

O presidente dos EUA, Donald Trump, colocou em prática, neste início de mandato, o seu discurso de campanha. Nele, Trump prometia reduzir o apoio à Otan e retirar os EUA de conflitos como o da Ucrânia, muito onerosos para o governo norte-americano, segundo ele. De fato, na última semana, ele travou uma negociação direta com Vladimir Putin, presidente da Rússia, sobre o fim da guerra, excluindo Ucrânia e europeus,

União entre EUA e Rússia ainda é incógnita

A viabilidade dessa parceria dependerá da habilidade diplomática de ambos os lados, avalia Klajman. A aliança tem a capacidade conter outras potências, como China e os países europeus. No entanto, também dá abertura para legitimar governos autoritários e enfraquecer blocos econômicos e alianças como a Otan.

“Nesse cenário, um bloco formado por Europa e Índia poderia emergir como um contrapeso importante, buscando defender seus interesses e valores em um mundo multipolar”, observa a professora. “Veríamos, então, uma nova ordem mundial com vários polos de poder, o que poderia levar a conflitos regionais. No final, o sucesso dessa aliança dependeria da habilidade dos líderes, da reação da comunidade internacional e de como as crises vão se desenvolver.”

As consequências de uma aliança ainda são uma incógnita. No entanto, pelo seu caráter inédito, podem ser tão positivas quanto, por alguns anos, os resultados do Start, acordo que foi o auge dos Salt. Em 1991, o acordo culminou com a eliminação de todos os mísseis balísticos e de cruzeiro de médio e curto alcance de ambos os países.

Por anos, o mundo viveu uma tranquilidade jamais vista depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Mas, diferentemente daquela época, quando perdeu poder em função do fim da União Soviética e ficou entregue a oligopólios, a Rússia teria mais benefícios neste momento.

“É inegável que traria vantagens importantes para a Rússia”, acrescenta Klajman. “O fim das sanções econômicas impulsionaria sua economia, atraindo investimentos e tecnologia. Poderia voltar a ter reconhecimento como potência global, o que fortaleceria sua posição internacional, enquanto divisões na Otan e União Europeia (UE) aliviariam pressões.”

A China, por mais suporte que dê à Rússia neste momento, também é um empecilho para Putin garantir a influência russa na Ásia. Uma aliança com os norte-americanos seria, neste sentido, um contrapeso ao poder chinês na região, o que também interessa aos russos. Mas, assim como nos acordos dos anos 1970 e 1980 de desarmamento, haveria uma forte contrapartida.

“A Rússia teria alguns desafios, como o de fazer concessões políticas, principalmente em relação a direitos humanos”, completa a especialista. Essa movimentação em direção ao governo de Trump seria um retrato preciso de como, na geopolítica mundial, as escolhas sempre levam a perdas. Que precisam ser medidas em cada negociação. “A autonomia na política externa seria limitada, e as relações com a China poderiam ser prejudicadas.”

A paz, afinal, exige sacrifícios.

Via Revista Oeste

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