Um dossiê apócrifo, encontrado pela Polícia Federal nos arquivos de Daniel Vorcaro, atribui a ex-sócios e executivos do Master as fraudes que teriam levado à liquidação do banco no ano passado e deflagraram a megainvestigação sobre o empresário.
O documento, de uma página impressa, aparece numa foto de 2022 armazenada no e-mail de Vorcaro, e não é assinado. Na imagem, o papel aparece sobre um envelope com selo, dentro do qual possivelmente teria sido enviado por correio. As afirmações que constam no dossiê estão sendo investigadas pela PF.
O texto, de 10 parágrafos, tem linguagem informal e começa com “Banco master / Essa conta vai ser paga pelo FGC”, referência ao Fundo Garantidor de Crédito, caixa abastecido pelos bancos e usado para quitar dívidas com credores em caso de quebra de um deles – no caso do Master, o FGC sofreu prejuízo de R$ 52 bilhões.
Uma grande parte é dedicada a Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro no Master. Diz que ele ficava com o lucro gerado com operações fraudulentas do banco. O documento o descreve como “dono e presidente de fato” do Master, enquanto Vorcaro, embora fosse formalmente presidente, seria um “laranja” e “só um vaidoso que não manda muita coisa, mas gosta de gastar feito gente grande”. “O lucro do banco vai para a própria empresa do pastinha Augusto Lima que fica com tudo”, diz outro trecho.
Em vários trechos, o dossiê trata Augusto Lima de forma pejorativa. “O Ditador nojento Augusto Lima, dono e presidente de fato (que nem aparece como diretor eleito) dita regra e governa com um regime de terror nos funcionários junto com seu capataz Luiz Bull, com medo que o esquema venha a público”, diz o documento.
Em outra parte, o dossiê diz que “a principal operação do Augusto é um consignado que esfola os companheiros funcionários públicos da Bahia com as mais altas taxas de juros por concessão de um esquema bem conhecido no estado”. Trata-se de uma possível referência ao Credcesta, um programa de empréstimo consignado oferecido a servidores estaduais da Bahia e que se tornou um dos grandes ativos do Master.
Procurada pela reportagem, a defesa de Augusto Lima não se manifestou. Ele havia sido convocado para prestar depoimento na CPMI do INSS nesta quarta-feira (11), mas foi beneficiado por uma decisão do ministro do STF, André Mendonça, que o autorizava a não comparecer. A sessão acabou sendo cancelada.
Luiz Bull, citado no texto, é ex-diretor de Compliance do Master e aparece junto com Ângelo Silva, ex-sócio do banco. Ambos, segundo o texto, manipulariam dados de ativos podres para transformar prejuízos em lucro “com os métodos mais rasteiros”.
“De quase 5 bi de captação garantida pelo FGC [Fundo Garantidor de Crédito], mais de 3 bi estão em ativos ilíquidos (fundos imobiliários, fundos de precatórios, títulos sem rating,) e o Bacen [Banco Central] não vê nada”, diz o dossiê, narrando em seguida como Bull e Silva manipulariam os papéis. “Aí os três bi vira três e duzentos, compensa o prejuízo da operação e ainda aparece um lucro (pra quem quer fingir que acredita)”.
O texto diz ainda que Bull e Silva ganhariam mensalmente “bônus em dobro” com “comparsas” dos setores de contabilidade e controladoria do banco, enquanto “os demais companheiros só recebem um minguado PLR” (Participação nos Lucros e Resultados). Depois, o texto afirma que “a mera avaliação justa desses ativos colocaria o PL do banco no campo negativo” – possível referência ao Patrimônio Líquido do Master.
Procurada, a defesa de Luiz Antônio Bull afirmou que “a carta anônima não passa de uma espécie de manifesto recheado de adjetivos, mentiras e acusações desvinculadas de qualquer prova”. “Luiz Bull jamais participou de qualquer tipo de atividade ilegal em todo seu histórico profissional, inclusive durante o período em que trabalhou no Banco Master. Sua remuneração, incluindo eventuais bônus, é declarada às autoridades competentes”, afirma a defesa. A defesa acrescentou ainda ser “no mínimo, temerário, dar crédito ao teor de um documento apócrifo com as características da carta apreendida”.
Procurada, a defesa de Angelo Silva também não se manifestou sobre o dossiê.
O texto ainda menciona o empresário Nelson Tanure, descrito como “sócio oculto” e “conhecido investidor abutre”, “que indiretamente também se financia no Banco e está comprando o Brasil todo”.
Da mesma forma, a defesa de Nelson Tanure não se manifestou. Em outras ocasiões, os advogados negaram que ele tenha sido sócio oculto do Master.
A defesa de Daniel Vorcaro também não se manifestou sobre o documento. O espaço da reportagem permanece aberto para esclarecimentos sobre o teor do texto.
Sociedade de Vorcaro com Augusto Lima terminou em 2024
Preso em novembro junto com Daniel Vorcaro, o empresário baiano Augusto Ferreira Lima, de 46 anos, deixou de ser sócio do Master em 2024, mas é investigado por fraudes financeiras durante o período em que foi CEO no banco.
Ele é apontado pela Polícia Federal como figura relevante por ter levado ao Master um de seus principais produtos: o cartão de crédito consignado Credcesta, que se tornou um dos pilares da estratégia de negócios da instituição.
Em 2018, Lima comprou do governo da Bahia a Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), estatal responsável pela rede de supermercados Cesta do Povo, e privatizada pelo então governador e a atual ministro da Casa Civil Rui Costa (PT).
Criou então um cartão de crédito para servidores e aposentados comprarem produtos, com empréstimos descontados no contracheque. Batizado de Credcesta, tornou-se um dos ativos mais lucrativos do Master após a entrada de Lima no banco, em 2020. Em 2024, o produto estava disponível em 176 municípios de 24 estados.
Hoje, a PF investiga a relação de Lima com políticos do PT.
Num dos celulares de Vorcaro apreendido pela PF, há uma conversa dele com a namorada, em novembro de 2024, sobre a sociedade com Augusto Lima. “Não to aguentando. Tentei entregar o banco varias vezes hoje pro augusto”, escreveu Vorcaro.
“Ele atende ligação ai depois me fala: era meu pai de santo, falou que é pra eu ficar e ficarmos juntos????”, diz uma mensagem posterior. A namorada depois pergunta: “Surreal m. Mas você conseguiu se livrar ou ainda continua isso?”, e Vorcaro responde: “Ainda continua”.