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Crescimento de Flávio Bolsonaro e caso Lulinha preocupam Lula

Crescimento de Flávio Bolsonaro e caso Lulinha preocupam Lula

O avanço do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nas pesquisas eleitorais e o desgaste político provocado pelas suspeitas envolvendo Fábio Luís Lula da Silva – o Lulinha – passaram a preocupar o entorno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Auxiliares do governo petista já avaliam que a combinação entre o fortalecimento de um potencial adversário eleitoral e a repercussão das investigações relacionadas ao filho do presidente pode antecipar o clima de tensão da disputa presidencial e pressionar o Palácio do Planalto a reagir politicamente.

A preocupação ganhou força após a divulgação de pesquisas recentes que apontam aproximação entre Lula e Flávio em um eventual segundo turno. Pesquisa da Genial/Quaest divulgada nesta quarta-feira (11) reforçou o alerta no entorno do governo. A pesquisa aponta empate entre os dois adversários no segundo turno, com 41% para cada um. Em fevereiro, Lula tinha 43% contra 38% de Flávio.

O estudo indica crescimento expressivo do senador entre eleitores de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro — cuja taxa de conversão subiu de 76% para 92% —, além de avanço entre eleitores de direita e independentes.

A pesquisa Genial/Quaest ouviu 2.004 eleitores com 16 anos ou mais entre os dias 5 e 9 de março de 2026. As entrevistas foram realizadas presencialmente em todas as regiões do país. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos e o nível de confiança é de 95%. Registro no TSE nº BR-05809/2026.

Antes disso, levantamento Atlas/Bloomberg divulgado no fim de fevereiro já havia indicado empate técnico entre os dois: o senador apareceu com 46,3% das intenções de voto contra 46,2% do presidente — diferença dentro da margem de erro de um ponto percentual. Em janeiro, Lula tinha 49,2% e Flávio, 44,9%. O estudo ouviu 4.986 brasileiros por meio de recrutamento digital com 16 anos ou mais e foi registrado no TSE sob o protocolo BR-07600/2026.

Dentro do PT, o crescimento do senador tem sido tratado como sinal de reorganização do campo conservador. O presidente nacional do partido, Edinho Silva, alertou dirigentes da legenda que Flávio pode se tornar um “catalisador de um sentimento antissistema” no país e pediu mobilização da militância para enfrentar o que chamou de tentativa da oposição de tornar o senador um candidato “palatável”.

“Flávio Bolsonaro é a essência do pensamento fascista ultraconservador. Se não falarmos isso para o povo brasileiro, ele será o ‘amigo Flávio’, cria de uma estratégia de marketing”, afirmou Edinho em reunião com dirigentes partidários.

PT prepara ofensiva digital contra Flávio enquanto Planalto tenta conter desgaste com Lulinha

Diante do avanço de Flávio Bolsonaro nas pesquisas e do impacto político das suspeitas envolvendo o Lulinha, dirigentes do PT passaram a discutir uma estratégia de reação que combine mobilização da militância em torno dos dois temas nas redes sociais. A avaliação no entorno de Lula é de que os dois fatores podem se retroalimentar politicamente em um ano de disputa eleitoral.

Segundo Edinho, o PT precisa mobilizar a militância para disputar a narrativa política no ambiente digital. “Nós temos que ir para a ofensiva. Nós temos que mobilizar a nossa militância. Nenhum robô debate mais que um militante estimulado e convencido”, disse o petista.

Enquanto o partido tenta organizar a reação política, o Planalto busca administrar o impacto das suspeitas envolvendo Lulinha. O nome do empresário passou a ocupar espaço central no debate público após a CPMI do INSS aprovar a quebra de seu sigilo bancário e fiscal — decisão posteriormente suspensa pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal. O caso vai a julgamento na sexta-feira (13) no Supremo.

Assessores do governo defendem que Lulinha venha a público esclarecer as suspeitas para reduzir danos políticos ao presidente. A orientação ocorre em meio ao receio de que o caso seja explorado pela oposição como elemento de desgaste eleitoral.

Na última semana, o próprio Lula telefonou ao filho para orientá-lo a evitar situações que possam gerar desgaste ao governo e a assumir responsabilidades caso venha a ser citado em eventuais irregularidades. A quebra de sigilo de Lulinha identificou que ele movimentou R$ 19,5 milhões entre 2022 e 2026. Os dados foram obtidos pela CPMI do INSS e posteriormente suspensos por decisão de Dino no STF.

Lulinha não é investigado pela Polícia Federal, mas foi mencionado ao longo das apurações. O nome dele apareceu nas operações de busca e apreensão contra a empresária Roberta Luchsinger, realizadas em meados de dezembro do ano passado.

A investigação busca apurar se o empresário recebeu valores de Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “careca do INSS”, apontado como pivô de um esquema de fraudes previdenciárias. Após a divulgação das informações do sigilo bancário, a defesa de Lulinha alegou que os dados não indicam irregularidades.

O advogado Marco Aurélio Carvalho, integrante da equipe que representa o filho de Lula, defendeu o arquivamento das investigações diante da ausência de provas contra seu cliente. Coordenador do Grupo Prerrogativas e integrante da defesa, Carvalho afirmou que os dados vazados não demonstraram “haver fatos” que justifiquem a continuação das apurações.

“Eu acredito que os vazamentos deveriam levar ao arquivamento das investigações, realmente não tem fatos que possam sustentar o prosseguimento das investigações”, disse Carvalho por mensagem à Gazeta do Povo.

Disputa entre Lula e Flávio reforça nova fase da polarização

Para analistas políticos, o cenário eleitoral começa a ganhar contornos mais claros, ainda que marcado por forte incerteza. O cientista político André César, da Hold Assessoria Política, avalia que o senador Flávio Bolsonaro começa a consolidar sua posição como potencial adversário competitivo contra Lula.

Segundo ele, à medida que o nome do parlamentar ganha consistência, novos segmentos do eleitorado passam a gravitar em torno de sua candidatura. “O senador vai solidificando seu nome e, desse modo, começa a atrair potenciais apoiadores — direita, centro-direita e centro entram na órbita do parlamentar”, afirma.

Na avaliação do especialista, o cenário eleitoral permanece aberto e sujeito a fatores políticos e econômicos que podem alterar o equilíbrio da disputa. “Não há um favorito único na atual disputa. Lula lidera, mas a sombra de Flávio Bolsonaro se faz presente e começa a crescer. O jogo apenas começou”, diz.

Para o analista André César, o ambiente atual é marcado por incerteza e tende a produzir uma eleição altamente disputada. O próprio Flávio Bolsonaro atribui seu crescimento nas pesquisas à identificação de parte do eleitorado com o legado político de seu pai e ao que descreve como perseguição contra aliados do campo conservador.

“Eu acho que é a força do sobrenome. São as pessoas se sensibilizando cada vez mais com a perseguição que o Bolsonaro sofre”, afirmou o senador ao comentar os levantamentos eleitorais. Ele também citou a insatisfação popular com corrupção, impostos e violência como fatores que estariam impulsionando sua candidatura.

O parlamentar tem criticado a gestão do governo Lula e afirmou que pretende apresentar um programa de governo voltado a retomar o crescimento econômico. Segundo ele, o país vive um momento de “incompetência do atual governo” e precisa voltar ao “caminho da prosperidade”. Flávio disse que pretende detalhar seu projeto político em um evento previsto para o fim do mês, em São Paulo.

Na estratégia eleitoral do PL, o avanço do senador reforça a avaliação de que a disputa presidencial tende a se organizar em torno de dois polos políticos. O senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha e líder da oposição no Senado, afirma que o sistema partidário brasileiro hoje se estrutura basicamente em torno de duas forças.

“Qualquer pesquisa de opinião que vocês façam hoje, qualquer instituto, se vocês estimularem partidos políticos, vão verificar que existem dois partidos no Brasil. É o PT e o PL”, declarou.

Segundo Marinho, a definição da chapa presidencial dependerá das alianças partidárias que forem construídas ao longo do processo eleitoral. Ele indicou que o partido busca um perfil capaz de ampliar o alcance eleitoral da candidatura.

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