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Contaminação em aves no litoral de SP acende alerta para risco ambiental

Metais pesados foram encontrados no organismo de aves que sobrevoam o litoral norte de São Paulo. A descoberta partiu de um levantamento do Centro de Estudos Ambientais (CEA) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Rio Claro. A análise revelou a presença de cádmio, zinco, arsênio e cobre no fígado de 51 animais recolhidos em praias de São Sebastião. O resultado escancara o avanço da poluição nos ecossistemas marinhos do país.

Entre os elementos, arsênio e cádmio se destacam por não possuírem qualquer função biológica conhecida em vertebrados, além de provocarem efeitos tóxicos mesmo em pequenas quantidades. O pesquisador Guilherme dos Santos Lima, responsável pela pesquisa, alerta que, embora zinco e cobre sejam essenciais para o metabolismo, o acúmulo dos outros metais levanta sérias preocupações.

Os dados fazem parte da tese de doutorado do cientista, vinculada ao programa de pós-graduação em Geociências e Meio Ambiente da Unesp. Sob orientação do pesquisador Amauri Antonio Menegário, coordenador do CEA, o estudo ganhou repercussão internacional na revista científica Environmental Pollution, publicada em 2024.

O caminho dos contaminantes até as aves ocorre por meio da cadeia alimentar. O processo começa no plâncton, que absorve os metais, passa para peixes pequenos e chega aos maiores, que servem de alimento para aves predadoras.

No verão, pinguins-de-Magalhães costumam percorrer o litoral sul-americano em busca de alimentos. Ao alcançar o litoral norte de São Paulo, esses animais precisam se alimentar para iniciar o trajeto de volta. Nesse ciclo, consomem peixes de maior porte, que concentram os metais presentes na cadeia alimentar.

A pesquisa é pioneira por mapear tanto a contaminação direta pelo ambiente quanto o acúmulo progressivo dos metais ao longo da cadeia. O levantamento incluiu nove espécies, entre migratórias e residentes, como pinguim-de-Magalhães, petrel-grande, pardela-preta, albatroz-de-bico-amarelo-do-Atlântico, albatroz-de-sobrancelha, biguá, fragata-magnífica, atobá-pardo e gaivotão.

Todas as aves analisadas foram recolhidas entre 2016 e 2022 durante monitoramento diário nas praias da bacia de Santos. Mortas e encalhadas, foram encaminhadas ao Centro de Estudos Ambientais da Unesp pelo Instituto Argonauta, responsável pela conservação na região.

As espécies migratórias chamaram atenção pelos maiores índices de contaminação. Pinguins e albatrozes, que vêm de áreas teoricamente mais preservadas, revelam que a poluição ultrapassa os limites do litoral paulista.

“Os contaminantes que estavam nos peixes menores e maiores chegam ao estômago dos pinguins, que são predadores de topo de cadeia”, explicou o pesquisador. “Várias outras espécies que também ocupam essa posição podem ser impactadas pelo fluxo da contaminação.”

Os pinguins-de-Magalhães apresentaram níveis de arsênio que variaram de 0,86 mg a 70 mg por quilo. A diferença ocorre porque a dieta desses animais muda durante longos deslocamentos. Na migração para zonas subtropicais, lagostas e lulas, ricas em cádmio, passam a integrar a alimentação dos animais.

Análises dos fígados confirmaram vestígios desse metal. Já espécies que permanecem na região, como atobá-pardo e fragata-magnífica, registraram níveis constantes de cádmio e cobre, o que evidencia exposição contínua a fontes locais de contaminação.

O levantamento também detectou concentrações relevantes de arsênio e zinco em aves residentes, como biguá e atobá-pardo

O levantamento também detectou concentrações relevantes de arsênio e zinco em aves residentes, como biguá e atobá-pardo. Esse padrão indica que diferentes espécies compartilham recursos alimentares contaminados no litoral.

Os pesquisadores acreditam que a poluição tenha origem múltipla. Além de fontes naturais, como processos geológicos e atividade vulcânica, atividades humanas — mineração, indústrias, agronegócio e descarte de lixo — estão diretamente associadas ao problema.

O próximo desafio da equipe é entender quais fatores contribuem para a alta concentração de contaminantes nas aves que circulam pela costa brasileira.

Via Revista Oeste

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