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Caso Master impulsiona debate eleitoral do combate à corrupção

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O avanço das investigações do escândalo do Banco Master colocou o combate à corrupção no centro da disputa eleitoral de 2026. Nas últimas semanas, o tema ganhou destaque em pesquisas de opinião e no debate político, impulsionado por denúncias de desvios de recursos e de sequestro do Estado por grupos criminosos.

O caso Master deu farta munição ao discurso anticorrupção à medida que o episódio deixou de ser considerado apenas como gigantesco golpe financeiro para se converter, aos olhos do eleitor, em um dos maiores escândalos de corrupção da história do país, com suspeitas pairando sobre autoridades dos Três Poderes da República.

Ao abalar a confiança em instituições republicanas como o Banco Central (BC), o Supremo Tribunal Federal (STF) e fundos públicos de previdência – aviltadas pelo tráfico de influência, por blindagens de toda ordem e uso privado de suas estruturas –, o caso Master ainda ajudou a evidenciar políticos vistos como antissistema.

Pesquisas apontam corrupção no topo da lista de preocupações dos eleitores

Levantamentos divulgados nas últimas semanas atestaram essa tendência. Na última pesquisa AtlasIntel/Bloomberg, a corrupção figura como principal problema do país, citada por 54,3% dos entrevistados, virtualmente empatada com o item criminalidade e tráfico de drogas (53,3%). Foram ouvidos 4.986 eleitores entre 19 e 24 de fevereiro, com margem de erro de um ponto percentual e 95% de confiança.

A pesquisa Genial/Quaest, com 2.004 eleitores sondados de 6 a 9 de março, mostrou que a violência permaneceu em primeiro lugar, com 27%, mas a corrupção subiu de 17% no mês anterior para 20%, tornando-se a segunda maior preocupação nacional. O levantamento tem margem de erro de dois pontos e 95% de confiança.

Já o Datafolha registrou 9% dos entrevistados citando a corrupção como principal problema do país, ante 8% em dezembro, refletindo o tipo de questionário aplicado. O levantamento também ouviu 2.004 eleitores, de 137 municípios, no período de 3 a 5 de março, com margem de erro de dois pontos e 95% de confiança.

Para especialistas, o sentimento anticorrupção pautará eleições de 2026

Para o cientista político Antônio Flávio Testa, se comparado a outros escândalos de corrupção com forte reflexo político no país, como o mensalão (2005) e o petrolão (2014), o caso Master pode gerar repercussão mais grave devido às ligações com os Três Poderes e até o crime organizado. “Isso será exposto mundialmente”, aposta.

Leandro Gabiati, professor de Ciências Políticas do Ibmec-DF, não vê a ressurreição do lava-jatismo, mas sim o retorno do debate sobre a corrupção, que tende a ser uma pauta prioritária na campanha junto com a segurança pública e a economia. Para ele, a dimensão da crise é proporcional ao seu espectro, que vai da direita à esquerda.

“A diferença fundamental é que a Lava Jato avançou no âmbito da Justiça, com as instâncias superiores alinhadas. Agora, há um processo que corre no STF e que atinge diretamente dois ministros da própria Corte. Para piorar, as investigações vão além do partido governista e envolvem todo o sistema político”, explica ele.

Novo é o partido mais identificado com bandeiras de combate à corrupção

Nesse contexto nacional, o Novo tornou-se o partido mais facilmente associado à agenda anticorrupção, posto antes ocupado pelo Podemos. Desde que revelações do caso Master surgiram, o Novo liderou reações a favor de apurações e punições: quebra de sigilos e a abertura de impeachments de ministros do STF e de CPIs.

No Senado, Eduardo Girão (Novo-CE) tornou-se expoente dessa ofensiva. Em 24 de fevereiro, cobrou do presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), a instalação da CPI do Banco Master ao ressaltar que o requerimento contava com 51 assinaturas. Em março, voltou à tribuna para defender a CPMI imediata diante de graves fatos.

O Podemos virou, entre 2021 e 2022, o partido do ex-juiz Sergio Moro e do ex-procurador Deltan Dallagnol, principais nomes da Lava Jato. Com falas centradas no combate à corrupção, Moro tentou se candidatar à Presidência, mas o plano não prosperou. Ele, porém, decidiu concorrer ao Senado acabou eleito pelo União Brasil para representar o Paraná. Já Dallagnol foi o deputado federal mais votado do mesmo estado em 2022.

Desmontada, Lava Jato é referência de ação da Justiça que virou movimento

O engajamento de políticos e setores da sociedade para desmascarar e punir corruptos remete naturalmente à Lava Jato. Deflagrada em 2014, a operação se tornou o maior símbolo do combate à corrupção da política brasileira. O seu impacto eleitoral foi vasto, culminando na eleição do presidenciável antissistema Jair Bolsonaro em 2018.

Mas a mesma Lava Jato que atingiu com força o sistema político também entrou em colapso. Em 2021, o STF confirmou a incompetência da 13ª Vara Federal de Curitiba nos processos contra o então ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), atual chefe do Executivo federal, e anulou as condenações. No mesmo ano, o Supremo confirmou a suspeição de Moro no caso do triplex. Em 2023, o TSE cassou o mandato de Dallagnol.

A Corte Eleitoral entendeu que ele deixou o Ministério Público Federal para evitar possíveis punições administrativas que poderiam torná-lo inelegível pela Lei da Ficha Limpa. Para os ministros, a saída antecipada configurou tentativa de contornar a lei. Por isso, o registro de candidatura foi invalidado e, como a decisão veio após a eleição, resultou na perda do mandato.

Em 2024, decisões do STF suspenderam multas bilionárias ligadas a acordos de leniência da operação, reforçando a percepção de desmonte jurídico e político de seu legado.

O esvaziamento abriu espaço para a reabilitação de personagens que haviam sido tirados de cena pela onda moralizante anterior, como o ex-ministro e ex-deputado José Dirceu (PT).

Incentivo dos eleitores à pauta anticorrupção favorece a oposição

Analistas concordam que a volta do tema da corrupção ao topo das preocupações do eleitor favorece mais a oposição, sobretudo candidatos de direita.

Até mesmo o presidente Lula inverte narrativas para tentar se cacifar com o caso Master, o mesmo que o desgasta, dizendo enfrentar “magnatas do crime”.

Segundo Elton Gomes, professor de Ciências Políticas da Universidade Federal do Piauí (UFPI), o fortalecimento do sentimento antiestablishment não significa restauração do ciclo de alta da Lava Jato. “O assunto voltou, pressiona a campanha eleitoral e tende a favorecer os conservadores, mas ainda não tem a força para reproduzir os efeitos de 2018”, diz.

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