ENVIADO ESPECIAL AO RIO DE JANEIRO — O Ministério das Relações Exteriores divulgou, na tarde deste domingo, 6, o comunicado final da 17ª Cúpula do Brics.

O documento, chamado “Declaração do Rio de Janeiro”, tem o seguinte título: “Fortalecendo a Cooperação do Sul Global para uma Governança mais Inclusiva e Sustentável”.
O texto trata de uma série de questões, como:
- 1. Defesa do multilateralismo;
- 2. Reforma da governança internacional;
- 3. Cooperação econômica e financeira;
- 4. Ação climática e ambientais;
- 5. Saúde pública e equidade;
- 6. Enfoque no Sul Global;
- 7. Adesão de novos membros;
- 8. Conflitos e segurança global;
- 9. Inovação, tecnologia e infraestrutura; e
- 10. Cooperação setorial ampla.
Nas 38 páginas que compõem o documento, não aparece nenhuma vez a palavra Estados Unidos e apenas uma vez é citada a Ucrânia. Já Israel é condenado sete vezes por causa da guerra em Gaza.
A diplomacia brasileira procurou adotar um tom moderado em relação aos Estados Unidos, contrariando o desejo do Irã, que pressionava por uma declaração firme contra os ataques direcionados ao seu programa nuclear clandestino.
“Condenamos os ataques militares contra a República Islâmica do Irã desde 13 de junho de 2025, que constituem uma violação do direito internacional e da Carta das Nações Unidas, e expressamos profunda preocupação com a subsequente escalada da situação de segurança no Oriente Médio“, diz o texto. “Expressamos ainda séria preocupação com os ataques deliberados contra infraestruturas civis e instalações nucleares pacíficas sob totais salvaguardas da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), em violação ao Direito Internacional e a resoluções pertinentes da AIEA. As salvaguardas e a segurança nucleares devem ser sempre respeitadas, inclusive em conflitos armados, para proteger as pessoas e o meio ambiente contra danos. Neste contexto, reiteramos nosso apoio às iniciativas diplomáticas destinadas a enfrentar os desafios regionais. Exortamos o Conselho de Segurança das Nações Unidas a se ocupar desta questão.”
No caso da guerra na Ucrânia, a Rússia não é citada nominalmente nem responsabilizada pela invasão iniciada no dia 24 de fevereiro de 2022.
“Recordamos nossas posições nacionais em relação ao conflito na Ucrânia, expressas nos fóruns apropriados, incluindo o CSNU e a AGNU”, diz o documento. “Registramos com apreço as propostas relevantes de mediação e bons ofícios, incluindo a criação da Iniciativa Africana de Paz e do Grupo de Amigos para a Paz, voltadas para a resolução pacífica do conflito por meio do diálogo e da diplomacia. Esperamos que os esforços atuais conduzam a um acordo de paz sustentável.”
O Irã pressionou para incluir críticas a Israel
A delegação iraniana tentou retirar do texto final qualquer menção à solução de dois Estados — um para Israel e outro para a Palestina — como caminho para superar o conflito no Oriente Médio.
No entanto, essa fórmula implicaria reconhecer o direito de existência do Estado de Israel — algo que o regime dos aiatolás não aceita. O Irã se recusa até mesmo a mencionar o nome do país, referindo-se a a Israel apenas como “entidade sionista”. Essa expressão, aliás, não foi incorporada ao texto final dos Brics.
Brasil e Índia evitaram declaração final antiamericana
As diplomacias do Brasil e da Índia trabalharam intensamente para evitar palavras agressivas contra os Estados Unidos, para que o bloco não aparecesse como antiamericano ou antiocidental.
A Índia está construindo uma parceria cada vez mais estreita com os Estados Unidos, especialmente no setor de segurança e defesa e de inteligência, principalmente em virtude da contenção da China na Ásia.
O Brasil, por sua vez, não queria se indispor ainda mais com o governo do presidente Donald Trump, em um momento em que existe a possibilidade da aplicação de sanções via Lei Magnitsky contra ministros dos Supremo Tribunal Federal (STF).
Cúpula vazia, posições divergentes
A ausência do ditador chinês Xi Jinping, do ditador russo Vladimir Putin, do presidente turco Recep Tayyip Erdoğan, do presidente iraniano Masoud Pezeshkian e do ditador do Egito Abdul Fatah Khalil Al-Sisi, entre outros líderes de países membros, deu uma percepção de esvaziamento da cúpula.
Além disso, surgiram divergências entre países membros do Brics. Entre elas, sobre a reforma do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), onde o Brasil tem a ambição de ocupar um assento permanente, junto da Índia e da África do Sul.
Outros países, todavia, têm reinvindicações parecidas, como o Egito e a Etiópia, ou tentam evitar uma redução de seu poder no órgão, como a China.
Fontes diplomáticas ouvidas por Oeste durante a cúpula do Brics afirmaram que a ausência dos chefes de Estado dos países membros e associados é um indicativo claro de que eles preferem negociar diretamente com os Estados Unidos, a fim de evitar um posicionamento coletivo que poderia contrariar seus próprios interesses.