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BRICS divulga comunicado final ‘morno’ sem citar os EUA

ENVIADO ESPECIAL AO RIO DE JANEIRO — O Ministério das Relações Exteriores divulgou, na tarde deste domingo, 6, o comunicado final da 17ª Cúpula do Brics.

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, o premiê da China, Li Qiang, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, o presidente da Indonésia, Prabowo Subianto, o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, o primeiro-ministro do Egito, Mostafa Madbouly, o primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed Ali, o príncipe herdeiro de Abu Dhabi, xeque Khaled bin Mohamed bin Zayed Al Nahyan, e o ministro das Relações Exteriores do Irã, Seyed Abbas Araghchi, posam para uma foto de família durante a Cúpula do BRICS no Rio de Janeiro, Brasil, em 6 de julho de 2025. | Foto: REUTERS/Pilar Olivares
Foto de família durante a Cúpula do BRICS no Rio de Janeiro | Foto: Pilar Olivares/Reuters

O documento, chamado “Declaração do Rio de Janeiro”, tem o seguinte título: “Fortalecendo a Cooperação do Sul Global para uma Governança mais Inclusiva e Sustentável”.

O texto trata de uma série de questões, como:

  • 1. Defesa do multilateralismo;
  • 2. Reforma da governança internacional;
  • 3. Cooperação econômica e financeira;
  • 4. Ação climática e ambientais;
  • 5. Saúde pública e equidade;
  • 6. Enfoque no Sul Global;
  • 7. Adesão de novos membros;
  • 8. Conflitos e segurança global;
  • 9. Inovação, tecnologia e infraestrutura; e
  • 10. Cooperação setorial ampla.

Nas 38 páginas que compõem o documento, não aparece nenhuma vez a palavra Estados Unidos e apenas uma vez é citada a Ucrânia. Já Israel é condenado sete vezes por causa da guerra em Gaza.

A diplomacia brasileira procurou adotar um tom moderado em relação aos Estados Unidos, contrariando o desejo do Irã, que pressionava por uma declaração firme contra os ataques direcionados ao seu programa nuclear clandestino.

“Condenamos os ataques militares contra a República Islâmica do Irã desde 13 de junho de 2025, que constituem uma violação do direito internacional e da Carta das Nações Unidas, e expressamos profunda preocupação com a subsequente escalada da situação de segurança no Oriente Médio“, diz o texto. “Expressamos ainda séria preocupação com os ataques deliberados contra infraestruturas civis e instalações nucleares pacíficas sob totais salvaguardas da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), em violação ao Direito Internacional e a resoluções pertinentes da AIEA. As salvaguardas e a segurança nucleares devem ser sempre respeitadas, inclusive em conflitos armados, para proteger as pessoas e o meio ambiente contra danos. Neste contexto, reiteramos nosso apoio às iniciativas diplomáticas destinadas a enfrentar os desafios regionais. Exortamos o Conselho de Segurança das Nações Unidas a se ocupar desta questão.”

No caso da guerra na Ucrânia, a Rússia não é citada nominalmente nem responsabilizada pela invasão iniciada no dia 24 de fevereiro de 2022.

“Recordamos nossas posições nacionais em relação ao conflito na Ucrânia, expressas nos fóruns apropriados, incluindo o CSNU e a AGNU”, diz o documento. “Registramos com apreço as propostas relevantes de mediação e bons ofícios, incluindo a criação da Iniciativa Africana de Paz e do Grupo de Amigos para a Paz, voltadas para a resolução pacífica do conflito por meio do diálogo e da diplomacia. Esperamos que os esforços atuais conduzam a um acordo de paz sustentável.”

O Irã pressionou para incluir críticas a Israel

A delegação iraniana tentou retirar do texto final qualquer menção à solução de dois Estados — um para Israel e outro para a Palestina — como caminho para superar o conflito no Oriente Médio.

No entanto, essa fórmula implicaria reconhecer o direito de existência do Estado de Israel — algo que o regime dos aiatolás não aceita. O Irã se recusa até mesmo a mencionar o nome do país, referindo-se a a Israel apenas como “entidade sionista”. Essa expressão, aliás, não foi incorporada ao texto final dos Brics.

Brasil e Índia evitaram declaração final antiamericana

As diplomacias do Brasil e da Índia trabalharam intensamente para evitar palavras agressivas contra os Estados Unidos, para que o bloco não aparecesse como antiamericano ou antiocidental.

A Índia está construindo uma parceria cada vez mais estreita com os Estados Unidos, especialmente no setor de segurança e defesa e de inteligência, principalmente em virtude da contenção da China na Ásia.

O Brasil, por sua vez, não queria se indispor ainda mais com o governo do presidente Donald Trump, em um momento em que existe a possibilidade da aplicação de sanções via Lei Magnitsky contra ministros dos Supremo Tribunal Federal (STF).

Cúpula vazia, posições divergentes

A ausência do ditador chinês Xi Jinping, do ditador russo Vladimir Putin, do presidente turco Recep Tayyip Erdoğan, do presidente iraniano Masoud Pezeshkian e do ditador do Egito Abdul Fatah Khalil Al-Sisi, entre outros líderes de países membros, deu uma percepção de esvaziamento da cúpula.

Além disso, surgiram divergências entre países membros do Brics. Entre elas, sobre a reforma do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), onde o Brasil tem a ambição de ocupar um assento permanente, junto da Índia e da África do Sul.

Outros países, todavia, têm reinvindicações parecidas, como o Egito e a Etiópia, ou tentam evitar uma redução de seu poder no órgão, como a China.

Fontes diplomáticas ouvidas por Oeste durante a cúpula do Brics afirmaram que a ausência dos chefes de Estado dos países membros e associados é um indicativo claro de que eles preferem negociar diretamente com os Estados Unidos, a fim de evitar um posicionamento coletivo que poderia contrariar seus próprios interesses.

Via Revista Oeste

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