Nos últimos anos, a Turquia, sob a liderança de Recep Tayyip Erdogan, vinha ingensificando esforços para recuperar influência regional. A postura do país combinava ambições militares, políticas e nucleares, similares à do Irã.
A doutrina turca atual mistura o caráter laico e nacionalista de ditaduras ao estilo de Saddam Hussein (apesar de também haver eleições no país), com um traço de radicalismo islâmico. Esse conceito é denominado como Pátria Azul.
O sonho do governo de Ancara sempre foi o de estabelecer domínio naval e aéreo no Mediterrâneo Oriental, com reivindicações territoriais sobre áreas como o norte de Chipre, atualmente ocupado por forças turcas há mais de cinco décadas.
Além das tensões com a Grécia, que incluem ameaças explícitas como a do míssil balístico Typhoon, Erdogan promove o desenvolvimento de armamentos domésticos. Está em andamento a finalização do caça Kaan, previsto para entrar em operação até 2029.
Também a construção da usina nuclear de Akkuyu, cuja operação está prevista para começar neste ano, avança, teoricamente para produzir energia nuclear com fins pacíficos. No entanto, tais ações refletem a determinação turca de não ficar atrás dos vizinhos Irã e Israel, conforme sinalizado pelo próprio presidente.
Não é raro Erdogan repetir afirmações deste tipo. “Não posso aceitar que Israel tenha armas nucleares e a Turquia não”.
Contudo, a estratégia turca sofreu um revés significativo com os recentes ataques israelenses às instalações iranianas, que visaram a destruir o programa nuclear de Teerã e interromper a rede de influência iraniana na região.
Essas operações, apoiadas pelos Estados Unidos (EUA), não apenas enfraqueceram o Irã, mas também impactaram as aspirações turcas, uma vez que Ancara e Teerã compartilham interesses e alianças em diversas frentes regionais.
O professor Eyal Zisser destaca, em artigo no Israel Hayom, que a ofensiva israelense contribuiu para desmantelar o chamado “eixo da resistência”, composto por forças aliadas ao Irã e que incluíam, de certa forma, o apoio turco a grupos como o Hamas.
Para Zisser, “a guerra devolveu o Irã à sua proporção natural, um país que fala muito, mas tem pouco com o que sustentar suas palavras”, o que, para ele, reflete o enfraquecimento do poder regional que Ancara também buscava compartilhar.
O especialista Shay Gal complementa essa análise, no mesmo jornal. Ele ressalta que a Turquia, apesar de sua retórica agressiva e ambições, ainda não possui capacidade operacional comparável à de Israel e enfrenta limitações econômicas e tecnológicas que impedem a concretização de seus objetivos.
Gal afirma que a instabilidade decorrente das ações israelenses contra o Irã torna mais difícil para Ancara avançar com seus planos de ampliar sua influência militar e política.
Apoio à Turquia perde força
Ao mesmo tempo, potências externas como Rússia e China, que se aproximaram da Turquia e do Irã em um esforço para conter os EUA, também enfrentam dificuldades para consolidar sua presença e influência.
Neste momento, pelo menos, elas perderam grande parte da influência nas decisões mais decisivas para o futuro do Oriente Médio.
Neste cenário, a rota para o poder na região volta a passar por Israel. O momento, conforme tem proposto o presidente Donald Trump, sinaliza para a necessidade de os países se pautarem por uma política de estabilidade e paz, o que inclui o respeito a Israel.
Israel, enquanto isso, fortalece suas parcerias com Grécia, Chipre, Egito e Emirados Árabes Unidos para conter a expansão das ambições turcas e iranianas. E já se mobiliza para formalizar um acordo de paz com a Síria e com a Arábia Saudita, situações impensáveis há poucos anos.
Turquia, Rússia e China buscam novas configurações para os seus interesses, depois das transformações em curso na região. No novo cenário, a aceitação da existência de Israel é uma condição básica.