O ataque com mísseis balísticos lançado pelo Irã contra a base americana de Al‑Udeid, no Catar, nesta segunda-feira, 23, representa um movimento calculado dentro da escalada contida que se desenha no Golfo. O conflito atual teve início em 13 de junho, com os ataques israelenses a instalações nucleares iranianas.
Embora todos os projéteis tenham sido interceptados e não haja registro de vítimas ou danos, a ofensiva sinaliza uma mudança de postura tática de Teerã. Para manter uma retórica de força, o governo dos aiatolás agora mira os parceiros logísticos e estratégicos dos Estados Unidos (EUA) no Oriente Médio.
“Não foi uma escalada militar genuína, mas um ato calculado e ‘performativo’ de retaliação, tirado diretamente do manual do líder supremo Ali Khamenei”, declarou o analista Michael Rubin, do American Enterprise Institute.
O alvo físico foi a maior instalação militar norte-americana fora do território dos EUA, mas o recado político, segundo analistas regionais, também foi dirigido à Arábia Saudita. Há uma cooperação do governo saudita com os EUA em inteligência e segurança que tem crescido.
O Irã não buscava causar baixas: o ataque foi detectado com antecedência, os mísseis foram interceptados e não houve alarme de retaliação imediata. Ainda assim, a Casa Branca classificou o ato como “provocação inaceitável contra a estabilidade da região”. Tudo dentro deste teatro de guerra.
A Arábia Saudita é o principal ponto de atenção nesse novo equilíbrio, apesar da retomada de relações com o Irã em abril de 2023, depois de sete anos de ruptura. Mas, desde que retomou articulações estratégicas com os EUA e flexibilizou restrições sobre o uso do seu espaço aéreo, Riad tem ampliado a cooperação com Washington em níveis que preocupam Teerã.
O Irã considera a infraestrutura saudita e de aliados dos EUA, com radares, postos de reabastecimento, centros de dados, como partes ativas da cadeia logística norte-americana. Da mesma maneira que encaram a base no Catar.
O Catar, ainda que tradicionalmente mais neutro, abriga mais de 10 mil militares norte-americanos e é sede do Comando Central das Forças Armadas (Centcom).
Tal logística não tem se envolvido em combate direto. No entanto, essas redes, assim como a infraestrutura norte-americana no território saudita, são encaradas pelo país persa como locais facilitadores de operações hostis ao Irã.
Além disso, há um histórico em relação ao Iêmen: em 2019, drones lançados de território iemenita atingiram diretamente as refinarias de Abqaiq e Khurais e paralisaram temporariamente a produção de petróleo saudita. Os autores da agressão foram os houthis, coordenados pelo Irã, de forma indireta.
O ataque ao Catar se insere nesta estratégia de pressão indireta, conforme descreve Seth Frantzman, no The Jerusalem Post.
“Enquanto o Irã teve que responder aos ataques aéreos dos EUA realizados nas primeiras horas de domingo para mostrar que não iria se render, o país não deseja uma guerra descontrolada que coloque em risco o regime iraniano.”
Neste sentido, o ataque serve, ao mesmo tempo, como uma resposta, mas também como um pedido de trégua.
“Além disso, Teerã sabe que o presidente dos EUA, Donald Trump, tem falado sobre um acordo e paz, o que significa que há uma possibilidade para o Irã recuar.”
Essa forma de dissuasão por alvos intermediários busca envolver os EUA, não pela força, mas por meio da criação de riscos regionais que seus aliados não queiram assumir. Em outras palavras, para os EUA é benéfico manter os aliados tranquilos.
Neste momento, de acordo com a opinião dos analistas, o Irã se comporta como aquele homem do bar, que se envolve em uma discussão e diz: “Me segura, me segura”, para não agredir o oponente. Mas, mesmo quando o largam, ele prossegue: “Me segura, me segura.”