Nada mais edificante do que observar o milagre brasileiro da transubstanciação política: em apenas alguns meses, Flávio Dino, ex-senador, ex-ministro da Justiça e eterno militante do PCdoB, metamorfoseou-se em vestal togada da Suprema Corte. Mas a liturgia do cargo, como é de praxe, não lhe alterou o vício comunista de origem: a vocação para o mando autoritário e para a tutela dos inferiores — no caso, o Poder Legislativo, essa ralé institucional que ousa disputar os nacos do orçamento.
Segundo apurou a Revista Oeste, líderes da Câmara veem na atuação de Dino um “jogo casado” com o governo do descondenado-em-chefe. Dito de outra forma: trata-se da velha dobradinha entre Executivo e Judiciário para subjugar o Parlamento e centralizar, sob pretextos morais e técnicos, o controle dos recursos públicos. A mecânica é simples como um truque de camelô: o governo retém as emendas; o STF (ou melhor, Dino) exige “aperfeiçoamentos” e “justificativas adicionais”; e os parlamentares, de joelhos, suplicam a liberação dos valores, como vassalos diante do senhor feudal.
O sacerdote Flávio Dino
Esse é o Brasil de 2025: uma democracia em que o Legislativo só legisla com permissão judicial, o Executivo governa por chantagem orçamentária e o Judiciário age como corregedor ideológico da República. Nessa realidade, a Constituição não passa de um estorvo obsoleto, a ser reinterpretado conforme os interesses do partido no poder — ou, como se diria em novilíngua togada, à luz do novo constitucionalismo democrático.
O episódio das emendas revela mais do que um escândalo técnico. Revela um método de poder. Ao amordaçar o Congresso com embargos, notas técnicas e pareceres supostamente isentos, o regime PT-STF elimina a barganha clássica e impõe a obediência pela asfixia. E Flávio Dino, no papel de sacerdote dessa engenharia autoritária, consagra o que sempre foi: um comissário da revolução disfarçado de juiz.
Em vez de pesos e contrapesos, temos agora só o peso. O peso do coturno comunista. A toga, outrora símbolo de imparcialidade, tornou-se colete de força da política. E como sempre, por óbvio, em nome da “democracia”.